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sábado, 7 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 8 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo



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Atlântida Karen Winehouse, sua admiradora de homens desnutridos, já que resolvi adentrar no assunto, reservei para você a apresentação da seção esportenativa. Vendiam-se ali roupas que tornavam qualquer pessoa atleta pró-fissional e pré-fissional; que tornavam a pessoa atleta-de-fim-de-semana, jogador-de-fim-de-ano ou esportista-de-fim-da-vida; havia roupas-para-atletas-religiosos-não-mostrarem-de-mais, e até mesmo roupas-para-ser-esportista-em-cerimônias-fúnebres.

Se comecei, agora vamos.

Úmero, seu detestador-mor da mídia, há agora à sua vista a Seção-dos-Milagrinhos-e-Milagretes, em que os lisocultuadores anônimos buscam roupas que os tornem famosos-por-um-cedê-de-sucesso e em que os famosos procuram vestes para nunca-deixarem-de-ser. Há ainda a Seção “As Mentiras que a Mídia Conta”, adaptada da tevê e reservada a inventar calúnias a fim de que o povo de cabelo sub-imundo tenha assunto para falar e orgulho para se motivar. Mais adiante, Card’Osso, falarei detalhadamente desse abestalhamento.

Lucca, tu que és o mais irônico dentre nós, nesse feirão há ainda a roupa-psicologizante, que serve para as pessoas que querem parecer pensadoras, mas não são capazes de tanto, forjarem um ar intelectual. E o importante disso tudo, como você já concluiu, é vender ilusões...

(Gostaria ainda, amigos, de deixar um comentário extra: entre todas as inutilidades ou futilidades possíveis de serem inventadas, a única que ainda não existe é alguma espécie de proteção, loção ou chapéu para os cabelos chapinhados contra a chuva e toda espécie de água... Torna-se, portanto, importante notar que, se chovia, pois às vezes chovia – o que era muita maldade do céu –, as os cabelos alisados se desfaziam.

Ora, moças atlantizadas para quem agora olho e que fazem essas belíssimas faces, sabemos que sem água expande-se o mau-odor. Nesse microcosmo desprezador-de-narinas chamado Reino Sub-Imundo, as pessoas não lavavam os cabelos todos os dias e até mesmo seus banhos eram minúsculos, inenxergáveis, semiexistentes. Não se importavam com isso – contanto que estivessem bonitos diante da sociedade, punham-se fétidos mesmo, muito: com convicção. E quando chovia – pois o céu por vezes tinha essa estranha ousadia, esse desafio à ordem – era o caos, o desespero. Havia tentativas mais-escandalosas-do-que-histérica-em-seus-dias de fugir da chuva. E, por conseqüência, os cabelos cresciam e se enrolavam quando tão cruel fenômeno ocorria... Foi desta forma, queridas, que surgiram os primeiros Movimentos Anti-Chuva do Reino. Aquele povo artificial praguejava contra a natureza, humilhando-a profundamente e, quando a chuva parava, voltava-se para o céu, com cartazes escritos assim: “Abaixo o céu!”, “Fora o céu!” e “Por que não vai chover pra lá?”).



Mas como ia dizendo, senhor Lucca Moretti, havia, finalmente, várias sessões para a multiprodução capilar: das musas, das consumidoidas e até mesmo das feias-sem-espelho-mas-metidas-a-fadas... Mas nada! nada! nada! se comparava ao principal produto a ser comercializado naqueles concursos.

 E não pense, João Martins, seu engolidor de beldades, que eram as modelos. Eram disparadamente as chapinhas, pois o Concurso-de-Beleza-Lisense era o paraíso artificial das alisadoras de cabelo. Grandes, pequenas, boas, malvadas, invocadas, simplesinhas, super-assadeiras, arrebentadoras-de-fios, capazes desde pequenas-tostadinhas, passando por frituras-excêntricas, até chegar aos massacres-capilares-em-massa. Havia inclusive, glorioso atlante, uma classificação estritamente importante: as chapas alisadoras de rico, as chapinhas de quem não pode e as de remediado – que são as que parecem não poder mas podem; ou vice-versa, que eu também não sei todos os detalhes de tudo...



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Enfim, havia pra todos os gostos, pra todos os tipos. Uma festa! Aquilo era uma Festa-dos-Cabeludos! E o patrocínio era das Lojas Multi-Titica, o maior centro-de-inutilidades sub-imundas.


Chapinha de quem não pode
 


                         Chapinha de remediado (consegue os  mesmos efeitos sendo imensamente mais barata)




 

Chapa alisadora de rico                         



Para que você possa fazer idéia das proporções de tal evento, meu amigalhão Úmero Card’Osso, os desfiles a que me refiro aconteciam em espaços que poderiam ser comparados aos nossos campos de sofiabol, quando lotados. E ficavam milhares de minipessoas de microvidas do portão para fora, por não conseguirem ou não poderem entrar. Mas telões eram providenciados, não pelo presidente-louco – que naquele momento coletava minhocas gordas para alimentar pássaros graúdos –, mas por Greval, cumprindo desagradado seu dever de etnodominador. Descontente, sentindo-se injustiçado e injustiçador, ele investia na organização de um megaevento com o qual antipatizava terrivelmente. Seu dever, aliás, estava nisso: ser o continuador de uma ideologia absurda. E foi com cara-de-purgatório que mandou espalhar pelos quatro cantos não-líricos do estádio esta mensagem:



A chapa que você compra é a nossa alegria!
Viva a Propaganda da Desnecessidade!



As modelos então desfilam – não por ser importante, mas por uma formalidade burrocrática. Algumas dão passos de garça-desarticulada  com o pescoço caindo para trás, resultado evidente dos excessivos puxões de cabelos, para alisá-los. Outras, em tudo muito semelhantes às seriemas, mal conseguem andar, por serem demasiado magricelas nas pernas – maníaco modelo de beleza por lá adotado. Outras ainda desfilam com a boca aberta, porque a chapinha queimou-lhes a nuca e o machucado muito arde, o que faz daquele cenário mais uma desinfeliz hora alisada.



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Algumas modelos vão às passarelas com a cara amuada, pois querem do fundo de seu couro cabeludo a cachocabeleira-expansiva. Mas não devem, não podem. Quanto a isso, Joque Lacão, o já referido faxineiro de Greval e despertador de consciências nas horas vagas, nos diz: “Os neuróticos não desobedecem à lei”.
 
(garça)   (seriema)



Caipira, meu parceiro de vida e de copo, que bom tê-lo conosco para mais uma rodada de vinho, para todas as rodadas de alegria! O garçom já lhe trará outra dose e as meninas juram que dançarão para nós após todos desmaiarmos. Acomode-se nas nossas poltronas-da-crítica-de-bar e veja: as modelos capilantras são o símbolo do que há de supraexcelente no Reino Sub-Imundo. Só os chapinhadores mais extravestidos podem chapá-las (entre eles, com maior destaque estava frufruisticamente Esníguio). E, como não poderia deixar de ser, vence a que usasse a chapinha mais moderna, o melhor neolançamento, a nova revolução no mercado das chapinhas – algumas delas vinham com máquinas fotográficas digitais embutidas, outras com tocadores de música-sem-música, outras ainda com disque-namorado-em-domicílio! O público, tolo, nem percebia que quem disputava não eram as moças, mas as marcas de alisadoras!

Seque-e-Rele era a atual misse. Cabia milimetricamente em todas as medidas: capilares. As outras medidas não interessavam: muito. Eram os cabelos, a chapa, a fritura, o fedor bem-ou-mal-disfarçado (ou ainda, a nova marca ou o novo modelo que deveriam comprar) o que realmente interessava. Seque-e-Rele era um fantoche, uma joana-boba, uma maria-ninguém, mas todos a viam como um ídolo. Ela, linda e abrilhantadora de olhos, desfilava cheia-de-si e vazia-do-todo.

Sim, Lucca, crítico de absurdos, havia alguns pré-requisitos para se disputar o cargo, e todas tinham de atendê-los: não fumar, não beber, não injetar e ser virgem e pura, semissanta de se pôr em altar para se beijar os pés. Além disso, tendo iniciado o concurso, vencidos os pré-requisitos e pós-esquisitos, interessava ainda e mais a futilidade. Para a atual misse, batom, bloche, pó-de-arroz, vestidos, sapatos, tamancos e perfumes eram os únicos assuntos interessantes no mundo. Era uma mulher, portanto, perfeita, segundo os padrões reinodistânticos. Vivia ela, infelizmente, uma atmosfera da exterioridade absoluta.

Digam-me todos, atlântidos, digam! Vocês, como eu, não torcem para que ela se transforme, para que ela cresça, para que ela veja além da sola-do-próprio-pé?! Não adianta...



Em meio a tudo aquilo, Osnígol foi escolhido o chapinhador-desta-e-de-todas-as-vezes: podendo, em termos de importância, ser comparado a nosso Agarram O’Bell, em talento inventivo. Mas, à surdina de seu quarto, à noite, sozinho, lamentando-se, não era uma macropessoa como supunham, e ninguém sequer o conhecia ou reconhecia. Ali suas dores gástricas fundadas no nervosismo, seus problemas-medos-receios fervilhavam e suas dúvidas eram um automartírio, uma automutilação terrível. Ovosníguio não era desprovido de inteligência. Ovovosníguio possuía uma visão ampla, uma abertura mental, e era esse o seu inferno. Porque se não visse, não pressentiria, não refletiria. Mas via.



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Ora, se não era ali ao lado da passarela – passadas as suas dúvidas momentâneas quanto à importância de seu trabalho – que se sentia bem no mundo, à vontade e com vontade, de uma alegria comparada a de muitos protagonistas de filmes infantis, aos quais muito ignorantemente nunca assisti.

O comportamento do chapinhista nos decepciona, atlântidos... Constrange-nos. Por alguns momentos, devido a nossa Gandhi-bondade também momentânea, torcemos por ele, por sua redenção da obtusidade lisense. E ele nos decepcionou. Aplaude agora feliz e sorridente uma rapazola qualquer: alisada, plastificada, uma tábua (s)em pessoa.

A seu lado, discreta, porém ardente, Tarja bate exatamente três palmas à vencedora. Obrigação essencial de quem está e não está no sistema. Angústia de quem vê possibilidades de mudança em seu chefe, que não muda. Articulação de quem pensa em algo maior. Como, Bea? Sim, também acredito que Tarja ainda muito nos promete. Veremos. Veremos.



O concurso, como vocês puderam ver, elevados aristoamigos atlântidos, é semi-interessante, ou mesmo um-quarto-interessante... E vocês vão bem se lembrar, não se compara ao concurso de nossa Sociedade Atlântida! Este sim é universo-abrangente, arrebatador, furioso e hercúleo. Aqui são outras as mulheres que desfilam, porque possuem a verdadeira potência: são as Aceitas por Baco!

Antes de tudo, no nosso Misse-Essencial há dois pré-requisitos: por um lado, possuir formação crítico-artística, provinda dos cursos de Amizade Transparente ou de meios autodidatas; por outro, ter boa percepção para sentidos ocultos do que não é dito letra-por-letra, mas que exige uma compreensão do que está no ar, do que só uma sensibilidade avançada pode permitir.

Sem isso, não podemos respeitar uma misse, afinal ela é: modelo, protótipo, arquétipo, um ideal a ser alcançado. Porém tais pré-requisitos são para poder disputar o concurso, porque para ganhá-lo jamais desprezaríamos: a beleza, a força libidinal, o vigor atlético, torneamento muscular na medida, a provocação estrábica: nossas modelos atiçam o público, atentam-no, fazem dele viajantes do odor di femina, e todos vão embora felizes, e sem comprar nada. Nossos concursos não são comerciais, são exibicionais e potenciais. O desfilar é para aquelas que podem se mostrar e têm o que mostrar. Quem não pode, calunia, difama, tenta rebaixar aquilo que não alcança. Quem gosta de ver, assiste. Quem vê, nunca mais esquece, porque há exímia qualidade na pré-seleção. Os platônicos aqui encontram o prazer da observação sedenta; Tântalos endoideceriam!

Keira foi eleita Misse-Essencial no último concurso. Ela tem a naturalidade por base, sendo dona de cacheados elegantes, de enrolados fenomenais: tem postura, tem força – ainda que com delicadeza, tem presença. Seus cabelos já tiveram várias cores e formatos, já fez e desfez de tatuagens, e isso importa e não. Porque nós a amamos e admiramos, Keira, do que jeito que for e quiser ser, desde que você mesma queira e escolha. Quando desfila, os homens se contorcem, como cachorros mal-adestrados; é fato ainda, Karen, que ela agrada excepcionalmente ao público feminino desprovido de recalques. Ora, é certeza nossa que não precisamos inventar pretextos e desculpas para exibirmos lindas e pensantes mulheres. Elas são orgulho e modelo da espécie, para todos nós.



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Mais ainda, nossa Misse-Essencial é uma mulher livre. Quando sente algum desejo ou vontade, convida quem quer para fazer o que bem quiser, sem necessidade de padrão comportamental baseado em pseudopudores e etiquetas absurdas. Keira é livre, ela se joga na felicidade, lança-se no universo.

Vejo como sorriem graciosas, Bea e Karen. De fato as Graças estão reencarnadas em vocês duas. É realmente bom lembrar que na nossa sociedade as mulheres não precisam se envergonhar de sentirem o que sentem e de exporem a gana de suas possibilidades e de seus desejos. Vocês podem, se quiserem, agir sem medo do puritanismo invejoso que ama a forjada e chatíssima “virtude”, da maneira como as moralistas-do-passado-manchado a concebem. Ah, mulheres, vocês lá realmente destacam-se em sua segurança. Sabem que não está tudo terminado quando dão seu último retoque na maquiagem, têm consciência de que não é o auge serem observadas por todos desde que nunca abram a boca para falar. Reconhecem bem, inclusive, que quando dois se trancam entre quatro paredes não é o fim de seu papel na história, mas o ponto de partida de sua escalada.




Keira preparando-se para concorrer



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Na próxima semana, não perca o início da volta de Greval ao lar, como Ulisses que, depois da saga, retornou. Tudo isso e muito mais no:


CAPÍTULO III – “DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS DA LUZ”; DA INVEJA E OUTROS ANJOS DA ESCURIDÃO

Parte IEncontro entre tese e antítese, entre a bonita e o feio; um neofuturo vislumbrando-se



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