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sábado, 28 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 11- Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

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Greval não se resignava ao neocódigo. Aquilo não lhe fazia o bem que se esperava que fizesse a um etnodominador. Ora, atlântidos-atormentados, nosso herói está cordiferido com tais leis, está mortificado com a aristojustiçaria, e oferece ao manicrata João Pedro II – para nossa grande honra – uma contraproposta nos exatos termos opostos aos que foram apresentados.
Pretendia o greválico homem dar aos seres de subvida as mesmas condições de macroexistência recebidas pela elite. Sim, a macroexistência, a equissaúde, a ambrósica-alimentação, o hercúleo-esporte, o bacante-lazer, a alexândrica-profissionalização, o total extermínio da gluteolatria, a dignidade racional, a platônica-educação, o etnorrespeito, a sartreana-liberdade, a convivência-familiar-confuncionista e o convívio-social-volteriano! É bem verdade que muitos dos valores propostos por ele nem mesmo a elite cabelense possuía, mas a seu ver aqueles eram direitos básicos que até seu pior inimigo deveria merecer – não como privilégio, mas como pré-requisito para que pudesse vir a desenvolver suas potencialidades humanas.
Obviamente, os aristocabeladores receberam a contraproposta como uma grande paródia dante-humorística para humilhar ainda mais a classe social rastejante. Contudo, nem todos assim a viram, do que resultou que alguns mau-olharam para Greval e para seu cargo de etnodominador, o que lhes contarei com mais detalhes na parte seguinte.

Parte VI - Outra estirpe das mais menos-prezadas; Greval sob risco de subvida

Este é um costume muito específico do reino. E, por isso mesmo, como boa parte do que de lá emerge, é-nos incompreensível. Vislumbrem, Úmero, Salles, Dudu, Caipira, Lucca, João Martins, Karen, Bea, vocês que observam essa realidade com olhos-de-criança-ouvindo-a-avó-falar-de-outro-mundo... No Reino Sub-Imundo dos Alisamentos Capilares, existia o que em gíria se chamava “ajoelhar-se-disposto-ao-chefe”, ou “tombo-dado-aos-colegas”, ou “oca-pessoa-que-não-pode-por-si-mesma”. No entanto, em linguagem oficial, emprego tão marcante – e descobrimos que se trata sim de um emprego – era o “cargo de secretário sem autoconfiança”. E o secretário sem autoconfiança do presidente João Pedro II era Energúncio-Tapete-Às-Mãos.
Energúncio não contrariava o chefe pelo que fosse e jamais lhe lançava um “talvez” ou um “mas”. Era tecnicamente impossível que oferecesse algumas expressões-tabu, como: “Em minha opinião”, “Eu acho”, “Eu penso” ou principalmente “Eu sei”. Por isso mesmo, ele era tido em grande conta por seu chefe, como um ulíssico-funcionário, com ilustradas ideias para solucionar problemas os mais difíceis. Sua técnica era simples: bastava-lhe papagaicamente repetir o que seu chefe houvesse dito, ou simplesmente apoiá-lo.
Muito boa sua comparação, Dudu! O cérebro dele, de fato, poderia ser comparado ao de Lomer Cinpson, essa rara e maior aberração da Sociedade Atlântida. Se alguém não se lembra, era o protagonista de um seriado de tevê extinto há muito em que as pessoas são amarelas por tomarem uma infinidade de Coca-Esfola, tem barriga um tanto quanto saliente por tomarem muita cerveja Prama e acreditam nos noturnos telessanguinários-jornais atlântidos; sim, nos soturnos telemartirizantes-jornais atlântidoentes!, essa nossa óbvia comédia cotidiana.
Tapete-Na-Mão apoiava quaisquer decisões do presidente, mesmo que fossem decretos que mandassem soldados rezarem a “Oração da Covardia”, mesmo que fossem leis que dissessem que balas perdidas seriam autorizadas somente em capitais do turismo, ou mesmo que lhe ordenasse enrolar papéis higiênicos recicláveis destinados inevitavelmente aos subviventes. Sabia, Energúncio-Tapete-Na-Mão, que o mais importante na vida não era a verdade, não era chegar ao fundo da questão, chegar às respostas das questões veropreocupantes. O mais importante era o que o presidente dissesse ou mandasse, ainda que manicrata, ainda que despreparado, ainda que inconsequente e prejudicial à maioria da bobulação – os já tão famosos seres de subvida.

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Ah, Úmero Card’Osso, como era oftalmocarente o presidente! Como era elitólatra! Como necessitava de um urgente-enxerto-cerebral! E, no entanto, mais absurdo que um presidente com teor cerebral comprometido somente poderia ser um seu canino-secretário-fiel.
Tal ser-excretário, meu amigo atlantidoísta, era colega de trabalho de Greval, esse nosso neo-herói, esse melhor funcionário que o Reino Sub-Imundo jamais teve, esse defensor-dos-desafortunados. E foi, por certo, determinante em seu destino.
Ah, Greval, como nos orgulhamos por você ter reinventado o Sistema Público de Saúde São Presidente João Pedro II; por ter esclarecido que a educação é a base de toda a sociedade – ainda que os seres de macrovida tenham entendido isso como uma piada-de-humor-ultranegro; por ter abolido o paternalismo e o protecionismo – esses disfarces da opressão mal-intencionada – e; principalmente, por ter dado oportunidade aos bons-de-serviço-e-fracos-de-conhecidos-influentes. Mas, Greval, questiono-o, apesar de que não me ouve, numa simples pergunta-retórica: que importa tudo isso? Que importa tudo isso quando você, camoniano ser, não fez sua reverência mensal ao presidente?!
Não poderia se “esquecer” de que é sua obrigação, no dia sete de cada mês, passar diante d’Ele e reverenciá-lo tirando o chapéu e o que mais lhe for pedido. Ora, Greval, aquela foi uma clara demonstração de seu desrespeito e de sua nítida vontade de abdicar de seu salário, que só viria depois da reverência.
É verdade, meninas atlantidocêntricas, não me olhem horrorizadas: tal oferta, no Reino Sub-Imundo, é tão importante para eles quanto é para nós a Oferenda do Primeiro Geladíssimo Copo de Cerveja. Deixem-me, portanto, prosseguir com os abismais fatos.
A consequência de tão estapafúrdias confusões foi que Energúncio, cumprindo metodicamente seu papel de tombador-de-colegas-honestos, denunciou Greval à Suprema Corte da Ignorância. Nosso herói, o que tudo fizera, o sempre-justo-reto-e-correto, o ajudante-mor do presidente, estava agora sobre grave risco de tornar-se um ser de microvida, e desempregado.
(Dizem os Abrutalhados Trabalhadores das Indústrias de Fabrícia que a pior mulher é aquela que, estando acompanhada, dá atenção a outro homem e que o pior homem é aquele que, além de não agir, não deixa que os outros ajam. Se é verdadeiro que Energúncio não é mulher e que não dá atenção a ninguém que não seja João Pedro II, é mais verdadeiro ainda que ele é daqueles que estorvam o caminho dos vencedores, que atrasam a vitória dos grandes, que tendem a acreditar que só porque eles próprios são pequenos, fracos e incapazes, todas as outras pessoas no mundo também o são. Não dão, não vendem, não emprestam. Não passam, não saem do caminho e colocam armadilhas para quem tenta ir adiante).
Todos os capilantras agora riem de Greval como se ri de um homem que perde uma ninfa para um idoso desprovido-dos-fios-capilares e super-provido-de-auros-estelares. Riem dele como se ri de um candidato que perde um grande emprego para alguém menos competente e mais bem familiarizado com o dono. Riem dele, enfim, como de um supremo-ser que era motivo de inveja e já não é mais! Dessa forma, antecipavam um triste fim do qual nem mesmo tinham certeza. E, por tal altura, já lhe apontavam na rua, dizendo-lhe: “Lá vai um senhor Jeca!”.

Página 38

Para depurar devidamente sua fossa, Greval acomodou-se à sua poltrona por umas horas, o suficiente para ver um plantão psicoapelador, em um dos jornais mais mentiráticos do reino: “A doentia Manisofa ataca novamente. Depois de parar o trânsito de Distúrbico por um dia, sem explodir ônibus algum, a sociopata agora ameaça explodir o templo mais sagrado de cada uma das três principais religiões existentes em nossa sociedade: um idademedista, um jucaísta e um altissonante. Estão todos situados na Faixa de Paza, centro de nossas principais guerras santas-do-pau-oco.
“É um momento tenso e inigualável na história da humanidade. As três religiões envolvidas disputam há milênios tais territórios. Tudo indicava que caminhavam, enfim, pacificamente para uma trégua... Mas foi justamente nesse momento de distração que Manisofa agiu.
“Vejamos um vídeo com as palavras do respeitadíssimo presidente manicrata, que havia sido por ela sequestrado e forçado a ler recitadamente um texto. Nota: logo após a gravação, ele foi abandonado em um dos nossos famosos Clubes-de-Luta-Clandestinos:
“- Cada igreja está repleta de explosivos. Se alguém sair, ela explode. Se alguém entrar, ela implode. Se for tentado qualquer contato com o exterior, desmorona. Cada uma delas tem o poder de destruir as outras duas. Cada uma delas tem um dispositivo no altar que pode acabar definitivamente com as outras. É a chance que todas têm de serem a única, de serem a soberana, de levarem adiante sua crença. Em quinze minutos, só existirá um desses templos, pois se não destruírem somente os outros dois, eu mesmo os destruirei todos. Em quinze minutos, esfacelar-se-ão, no mínimo, dois dos maiores templos da humanidade. Basta agora que vocês escolham. Por um sutil cuidado, há câmeras nas três igrejas, para que todos possamos acompanhar as ações dos detentores do poder. Eu amo o medo!”.
Greval, ao invés de dormir, como havia feito na vez anterior em que ouviu falar de Manisofa, passou a prestar atenção nos fatos. O jornal sensacionaleiro não poderia perder um minuto de audiência e subcultura. Mostrou, portanto, como a igreja idademedista ergueu imediatamente um amplidebate a respeito da incredibilidade de Manisofa, que já havia ameaçado explodir dez ônibus e não o fez. Disso, concluíram que se não matassem os outros, não seriam mortos, e deixaram estar, tranquilos e conscientes da melhor escolha. A igreja jucaísta pensou que deveria seguir o intraprincípio de sua religião, que era: “não fazer ao outro o que não desejaria que fosse feito a você”, e resolveu sacrificar milênios arquitetônicos – tornando-se assim artecidas, mas salvando alguns milhares de micro ou subvidas. Por fim, na igreja altissonante, depois de rápidas análises precipitadas e disparatadas, o líder chegou à conclusão de que, se não explodissem-implodissem-ou-demolissem as outras, seriam logo impiedosamente assassinados pelos infiéis-pecadores – e era até assustador que ainda não tivessem sido: “certamente um milagre!”. Empolgando-se em seu discurso e consigo mesmo, o líder disse ainda: “Esta é uma chance única, mulheres e homens de grande voz: podemos mudar o rumo da história!” E, sem titubear, ergueu uma nova canção, que ensinava os altos louvores, as altas doações e o total desapago, além é claro de justificar belas explosões e sacrifícios espantosamente em nome da fé. Foi então que apertou o botão, lançando pelos ares dois templos e milhares de fiéis. Foi desta forma que sua igreja criou o monopólio-da-fé, que não abordaremos mais adiante, meus amigos apressados, por respeito às vítimas da macroignorância.

Página 39

A tempo, importa-nos saber que Greval passou a refletir mais sobre a mulher dos cabelos à semelhança de fiapos de espiga-de-milho, autodenominada Manisofa, a criadora de tantos problemas. Não foi preciso muito para que concluísse ser preciso procurá-la, saber seus motivos, afagar-lhe a alma; ora, ninguém lutava por nada. Poderia ser dinheiro o que ela queria, poderia ser qualquer outra coisa: a questão central era realmente descobrir qual recompensa buscava Manisofa. Foi então que nosso herói lembrou-se de sua posição-de-risco no governo, de sua posição-de-risco em casa, e decidiu agir rapidamente. Mas como?

 
Foto da mão de Energúncio

Página 40


CAPÍTULO IV – NÚCLEO SOCIOILÓGICO DO REINO SUB-IMUNDO

Ora, João Martins, esse seu pragmatismo-clássico, essa sua memória-de-balconista-insatisfeito-com-seu-salário-mínimo! não me deixa mesmo esquecer de nosso filósofo-de-bar, o já aguardado e resguardado Souropeaux – o diabo-da-solidão, o filocarente, o vagante a sós. Pois bem, para que você saiba um pouco mais sobre tão centrípeto personagem; para que conheça bem sua incógnita mentalidade; para que enfim saiba o quanto Pratão – um alpinista lisense que crê ser melhor que os outros e atingir as alturas – fica pequeno diante de tal homem; por isso tudo, agora saberemos a opinião dele sobre alguns subfenômenos reinais.

Parte I – Sistema de governantes doidos do Reino Sub-Imundo

“Não se pode esperar algo diferente dessa sociedade, de métodos desoladores: os presidentes são, em sequência e sempre, egolouvadores, alterdestrutivos, sociopatas e, fundamentalmente, manicratas. Sim, o ‘Império da Loucura’, da demência, da insanidade paira sobre nós. Os governantes tudo podem, tudo sabem. São, em verdade, os Neros pré-modernos: com a sutil diferença de que em vez de atearem fogo ao reino, ateam o caos, o ilogismo, a ignorância e a discórdia. Por serem descompensados, os presidentes consideram em demasia o autoproveito, a unilateral visão de mundo e, incoerentemente-com-sua-própria-incoerência, o nepotismo.
A principal consequência de sua doença-mental – pré-requisito fundamental para poder ser eleito – é seu método político. Dele surgem suas decisões arbitrárias, criminosamente mal-intencionadas e genocidas. Os governantes constroem de tempos em tempos longas e caras estradas que ligam o Inabitável ao Inóspito, sem baldeações; iniciam projetos bárbaros de energia-nula, infuncionáveis, mas sempre pagos com antecedência; lavam, enfim, o dinheiro público no copo sujo de seu parentesco ou cunhadesco industrial e comercial.
Ora, já que é assim, ninguém pode compreendê-los: são doidos-nunca-varridos. E justamente por isso é mais fácil adorá-los, cultivá-los, chamá-los de ‘queridos’ e dar-lhes muitas reeleições desmerecidas, esquecendo paulatinamente suas injustiças acumuladas a cada pleitocídio”.
Tudo isso, meninas super-atlântidas, era o próprio Souropeaux que observava e analisava tomando um conhaque dos mais empoeirados daquela agropaisagem espontânea: o Bar Sujo. Gostava mesmo dali, pois enquanto Des Lize ia-lhe trazendo sorridentemente tudo quanto pedia, ele podia anotar em sua caderneta, já desencapada e amarelada, diversas acrogogias – ciência por ele mesmo inventada, tendo o sentido de “conduzir os homens às alturas” – que jamais seriam publicadas nem lidas, devido à falta de público que não fosse só ocupador-de-carteira-escolar, leitor-de-orelha-de-livro ou assistidor-de-tevê; por falta do público por nós denominado como: “leitor-de-expressões-máximas-de-uma-humanidade-inteira”!
É certo, Karen Wine, que ele estava coberto de razão como cobrimos nossos amores de emoção. O que ele não sabia é que ali, no Reino Do Instante, a Verdade era um acessório aberratório, coisa de pai-saudosista que já não entende nada-do-que-a-gente-gosta, artigo dos mais inconvenientes e criadores de antipatias ou, enfim: ele não sabia simplesmente que a Verdade não era requinte da moda. “E a moda é tudo”, já dizia Ovosníguio, o senhorito das chapas alisadoras.
Se forçarmos um pouco mais nossa vasta memória, minha amiga bacantora, lembrar-nos-emos de que as coisas de que Souropeaux não gosta jamais foram vistas em período algum, nem nos mais remotos, em nossa Sociedade Atlântida: protótipo dos convívios! Sendo assim, é importante fazer dele um foco de análise; ele, que se torna para nós agora um verme-saudável em meio à lavagem-superficial; ou ainda, uma laranja medonha, podre até no sumo do supra-sumo, mas que não contagia as demais.

Página 41

Apartes à parte, continuemos, amigos, com a narrativa.

O atual presidente, João Pedro II, fazia parte de uma grande linhagem de doidos, patetas, mendigos e fanáticos. Era, portanto, um exemplar perfeito para governar o Reino Sub-Imundo: um “despreparado”.
Porque no Reino Sub-Imundo, surpreso Úmero, a loucura foi a subforma encontrada para que nunca se errasse na escolha dos governantes. O essencial era que os presidentes fossem efetivamente incompetentes, não pudessem (ou quisessem) fazer coisa alguma para mudar, para melhorar a vida da bobulação de microvida. Ora, a sociedade cabelense era, por desexcelência, uma não-realizadora de sonhos, apesar de, mantê-los, na medida certa, existindo. “Sem ilusões o império não sobreviveria”, falava o manicrata. Matando a trilha de realizações dos sonhos, assassina-se a meta: a transformação social e individual.
Caipira, parceiro, aquela sociedade estava, por certo, longe de nosso adorado e pretenso viver-esclarecidamente. Pois veja...


CONTINUA...

Na próxima semana, não perca o consumidoidismo e as Lojas Multi-Titica!

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