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sábado, 21 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 10 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

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A reação dos Bocas Sujas foi imediata. Cuspiram no demo, abraçando definitivamente os dois novos deuses que dominavam o Reino Sub-Imundo: a deusa Mídia e o deus Sucesso. Ah! Tristeza de um atlântido! Fizeram chous por todo o reino e foram amados por todo ser humano. Invadiram a imprensa escrita no papel, a televisiva e a extrenetal. Eram rostos conhecedíssimos em todo lugar, com uma pseudointimidade absurda com as gentes. Enfim, estavam no auge do mundo e no fundo dele, ao mesmo tempo.
Isso porque o Sucesso e a Mídia, hoje, são hoje o fim da arte, Úmero. Ame seu anonimato como possibilidade única de continuidade de seu projeto artístico mais ou menos sério.
No entanto e salvadoramente, é preciso dizer que, em um momento de tentação de Baco, Inho contratou mui sorrateira e plurissacanamente um avião para matá-los em um pseudoacidente. Morreram todos juntos. Morreram, enfim, como devem fazer os amigos, os sempreamigos. Como morreremos nós, os atlântidos! Ademais... Tivemos o benefício de ser dos poucos que puderam presenciar a verdadeira beleza desses que se tornaram, infelizmente, semideuses lisocabeleiros. Nunca é demais reafirmar: aquele era um povo necrocultuador.

Parte III – a composição do belo e sua síntese; uma comemoração catastrófica e; o surgimento de uma nova heroína: Manisofa

Depois de acordar, na tarde da Quarta-Encinzas, Greval, herói de nossa gente, contou a Lúcsia que havia conhecido na noite anterior o famoso filósofo-de-boteco Souropeaux – a lenda-presente-e-viva, o oposto máximo das lendas-normais-e-ausentes tão veneradas naquele toxicorreino. A moça muito se interessou pela Triste Figura, pois tal era motivo de chacota e de riso para todos, até para os pedintes-nas-horas-vagas, excepcionalmente conhecidos como professores-do-estado.
Segundo a descrição dada pelo etnodominador, o arvorado Souropeaux era o ser de menos estatos no Reino Sub-Imundo, visto que nunca fazia chapinha – seus cabelos assemelhavam-se a alguma vassoura, a um leão-recém-rebelado, a um ouriço-loiro. Somado a isso, era mais pobre que os operários-do-sindicato-de-reaproveitamento-de-lixo-orgânico e que os integrantes-da-liga-de-recuperação-do-lixo-hospitalar – defeito deveras grave, o de ser pobre, no reino. Sua aparência, de modo geral, era a de um ser que acabara de retornar do Triângulo das Minissaias


           
Retrato-falado 1          

                                                                               
                                                                            Retrato-falado 2

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Lúcsia quis saber mais sobre o mito. Ela era um lucivivente ser em meio a um reino consumidoido; era uma mulher em meio a fêmeas-reprodutoras; era. Greval prometeu que o apresentaria a ela logo que possível.
O almoço que nossa diva preparou para seu marido era um banquete de Pratão. Desejava que seu homem renascesse e transvivesse. Não havia entre eles sinal de discórdia, pois o brilho-da-estrela iluminava o tombado-satélite. Sim, aquela integração é entendida por amados que se pluriapaixonam, que são cordiadoradores.
Sobre a mesa, sobremesas; sob a mesa, pernas e pés: entrelaçados. Tinham o afinco como que o de um caso que começa, com a vantagem de que cada descoberta a mais complementava as anteriores. Faziam eles daquele dia um novo primeiro-dia. Estavam a merecer um ápice, um cume, um momento de comemoração-bacantemente-dionisíaca.
Por isso é que resolveram ir a um chou, àquele chou. A intenção era a de um perfeito-fecho, de uma comemoração-das-que-aparecem-na-tevê! No entanto, não conheciam a banda: poderia ser ela, quem sabe, uma gigantesca-conhecedora de musicalidade. Não sabiam. Correram o risco, foram atrás; e se todos iam, eles foram.
E eram filas, tumultos, agito, no que não há novidade, como você bem sabe, Karenzita, nossa veneradora-do-megalomovimento. O fato é que estava ali a antifilosofia em formato musical, para que a aclamassem, e eles nem disso sabiam; à espera deles vibrava já a tóxico-audição-mor, e eles a ansiavam, em uma ignorância passiva. E depois de um atraso imemorável e ao mesmo tempo totalmente-memorável-por-sua-concordância-com-o-picaretismo-e-a-má-fé, surgiu a música de abertura do grupo “Eu te amo você”.
Bem notado, Eduardo Dudu, não farei o inconveniente de expor nesta tão bela obra de apresentação da sociedade lisense composição de tão baixo calão e talão. Deixemos para o leitor imaginativo a lembrança daquela sua música mais detestada, mais fixada em sua mente, aquela de que nunca esqueceu, mesmo sempre querendo. E sigamos!

Os primeiros versos foram suficientes. Os amantes se olharam apavorados, como quem diz sem dizer. E não precisaram de neo-ilogismos para entenderem que sairiam mui sutilmente dali. Desviando da vasta gama populacional ali presente – peões-à-procura-de-bois, bêbados-sem-mulher, mulheres-sem-essa-ideia-que-chamamos-de-beleza, entre diversos outros tipos curiosos –, andaram apressados até os portões e correram logo que passaram por eles, com um claro medo de que os in-seguranças os obrigassem a ficar porque pagaram.
Ah! Fugiam da obrigação de permanecer, como não podem fugir os adultos – quando são visitas – diante de um prato que não lhes apetece; como não pode fugir o professor – bode expiatório de todos os pais alisados – diante do aluno indisponível para o aprendizado; como não podem fugir os assalariados – microviventes por desgosto – diante da fome-nossa-de-cada-dia. Fugiram, enfim. Não quiseram presenciar a canção que se iniciava: “Sua cabeça pesa/ Não sei por quê.../ Um chapéu bonito/ comprei para você...”. Fugiram em um ato heroico diante daquela sociedade capetalista; os auros pagos que ficassem para trás!

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Sim, Beazinha, essa postura antimidiática de nossos heróis, nós a consideraremos uma vitória também nossa! Consideraremos assim que a atlantidoidade toma um pouco conta deles e os semi-irmana a nós. Não sente, por acaso, certa evolição por parte de Greval e Lúscia? Sinto e torço, minha cara, pois lhes quero conosco.
- O eu alírico da canção assemelhava-se a qualquer lisense, de modo mais ou menos explícito ou consciente, porque nossa bobulação ama o sofrimento e a dor e faz deles motivos fundamentais para seu dia a dia – dizia Lúcsia a Greval, no caminho de casa.
- Não bastava toda uma letra trilhada de rastejares, de subserviência, de uma moral-rebanhesca, ah! Uma letra que se preze não destaca tão vulgar flagrante de traição, ao estilo filme enlatado e produzido para massas-sem-massa-encefálica. Isso é pura verborreia para a poesia que foi nosso dia – completou Greval. E nisso sorriu para sua inspiração.
Foram para casa. Seu universo era interior, sua força vinha dos dois, não deixariam que influências exteriores prejudicassem aquilo que só cabia a quem amava.

Ora, amigos, que diferença há entre os chous. Que benefício tivemos, amigos! A nossa alegria, a banda ouvida, o sarau declamado! Está incorporado em nós o faro para as boas coisas, com ou sem o dinheiro, com e com amigos, sempre, Úmero!

Já em casa, Greval e Lúcsia ligaram a tevê e constataram uma estranha notícia no jornal televisivo matutino “As Mentiras Que a Mídia Conta”: uma mulher de menos de trinta anos, com cabelos que para muitos recordariam os fiapos de espigas-de-milho, vinha criando fama no reino devido a seus atos terroristas, como: explosões de fábricas de chapas-alisadoras-de-rico, sumiço de dezenas-de-aparelhos-televisores, entre outros atos posteriormente esclarecidos. Nisso, não havia novidade: nem ao menos graça. Desde que primeiro houvesse o desastre, e depois houvesse tentativas de se remediar, a “normalidade” não era afetada. O caos só surgiu a partir de um vídeo caseiro, enviado pela terrorista, com a presença sem-lustre do presidente do sindicato-dos-transportes-coletivos-de-rebanhos-humanos. Este aparecia lendo um texto afirmando categoricamente que dez dos dez mil ônibus da rede de Distúrbico iriam explodir no dia seguinte. Logo após, aparecia a moça dos fiapos de espiga-de-milho, que se autodenominava “Manisofa”, entre estridentes gritos socioaterradores:
- Isso é muito divertido! Isso é muito divertido! O trânsito desta cidade vai parar porque dez onibusinhos vão pelos ares. Uma capital como Distúrbico se rende ao caos porque 0,1% de seus “transportes-coletivos-de-gado-urbano” explodirá! A ordem tão pregada pela sociedade é uma farsa! A seriedade é um absurdo!
Apesar de assustados, Greval e Lúcsia foram dormir tranquilos, pois não precisavam dos transportes coletivos, visto que andavam em seu carro quase-zero quilômetro, movido a pouca-gasolina-e-muito-sangue-de-peões, subentendendo alguma mensagem do tipo: “eu quero que se exploda a perifeía toda”.
Sim, Salles, não me olhe com esta estranha face, que é a sua: nossos heróis também possuíam suas contradições.

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Parte IV – Um aparte para Des Lize e sua humanidade até então não citada devidamente
                                                           “Senta na cama em frente à penteadeira 
Vê no espelho o seu rosto abatido
Neste momento com os olhos rasos d'água
Vê seu futuro totalmente destruído
O sono chega e a envolve de mansinho
Quando ela sonha ser rainha de um lar
Por que num mundo onde ninguém é perfeito
Ela também tem o direito de sonhar”
                                                                                              Barrerito

Em frente ao espelho, Deslize passa sua mão esquerda nos cabelos. Vê que seu rosto está e é triste; está mal maquiada; sente-se fraca e sensível. É nesse momento que sua alma chora a existência perdida. Ela sabe e vê em seu reflexo que seu futuro foi despedaçado, quebrado em cacos sem beleza. Lembra até que não queria muito, só um futuro, uma família, um lar decente e feliz. Percebe que teve poucas mas até boas chances e as perdeu uma por uma. Quando menina, queria ser artista. Com o casamento precoce, apressado, aos quinze anos, grávida, foi-se o sonho.
Seu filho morrera em seu ventre, matando-lhe o útero e as esperanças de novos frutos. Seu marido trata-a como a um trapo e ela vive de atender pinguços, bebuns, sustentando seu homem vagabundo e sanguessuga.
Então ela chora profundamente, um choro que terá que engolir no dia seguinte para encarar novamente a rotina, a mesma de todos os dias. Já fora razoavelmente bela, modestamente sonhadora. Sabe agora, no entanto, que seu destino é afundar-se cada vez mais, numa decadência inevitável e demasiado humana, até que chegue a doença, a miséria e a talvez salvadora morte. Foram só deslizes...

Parte V – Código de não-direitos-do-povo; código de direitos-do-povo

“Eu, o presidente, faço saber que eu próprio sanciono a seguinte Lei por mim mesmo produzida:
Art. 1º: Não é permitido que uma pessoa que seja considerada bonita pela sociedade fique um dia sequer sem alisar os cabelos, sendo a medida punitiva para tão feia descompostura a pena de subvida (que é baseada na obrigatoriedade do trabalho servil sem consciência crítica, no enfrentamento de filas extensas para a pior das assistências hospitalares, na farsa contínua de uma possível melhora da educação pública e no consentimento da manipulação de seus ideais por um pequeno grupo interessado somente em si mesmo). Fica sendo esta a única restrição à nossa preciosa elite.
Art. 2º Esta Lei dispõe, principalmente, sobre a desproteção integral para os seres de subvida.
Art. 3º Além dos termos referidos no art. 1°, considera-se ainda ser de subvida, para os efeitos desta Lei, qualquer pessoa de classe social rastejante, sendo a ela pertencente de nascença ou tendo-a adquirido, e nela permanecido até depois de sua morte e de seu sepultamento.
Art. 4º Os seres de subvida não gozam de nenhum direito fundamental inerente à elite, tendo total prejuízo de qualquer proteção, faltando-lhes, por lei e por outros meios, todas as oportunidades, a fim de lhes dificultar, e sempre que possível, impossibilitar-lhes o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, caracterizando assim uma pseudoliberdade e uma forjada dignidade.
Art. 5º É dever da elite, da sociedade lisense em geral e meu dever particular assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos não-direitos para que devam provocar a doença, a fome, a má-educação, a ociosidade física, o tédio, o amadorismo, a ignorância, a repugnância, a grosseria, a ilusão de liberdade e o conflito constante tanto na questão familiar quanto na social para todos os seres de subvida.

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Art. 6º Todo ser de subvida será objeto de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, devendo ser punido na forma da Lei qualquer pessoa que atente, por ação ou omissão, aos seus não-direitos fundamentais.
Art. 7º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais elitistas a que ela se dirige, as exigências do mal incomum, os não-direitos e totais-deveres dos subviventes, restando, em caso de qualquer dúvida quanto à hermenêutica, o prejuízo dos últimos.”

Greval não se resignava ao neocódigo. Aquilo não lhe fazia o bem que se esperava que fizesse a um etnodominador. Ora, atlântidos-atormentados, nosso herói está cordiferido com tais leis, está mortificado com a aristojustiçaria, e oferece ao manicrata João Pedro II – para nossa grande honra – uma contraproposta...

CONTINUA...

Na próxima semana, não perca o talvez início da decadência de Greval e a ilógica governamental lisense.


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