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sábado, 2 de novembro de 2013

REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 3 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

Se você ainda não leu, as publicações anteriores estão em:
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Parte III – da descrição do bar menos importante da sociedade liso-capilar; em que fica claro como os momentos de libertação são raros no Reino Sub-Imundo; ou simplesmente: o Bar Sujo.
                                        “O banheiro é a igreja de todos os bêbados” – Cazuza

                                                                                                                 O famoso Bar Sujo

O Bar Sujo é o lugar aonde vão os supostamente piores tipos e os piores seres. Lá vão os desclassificados por natureza e os velhos desempregados por proteção paternal; é aonde vão, sendo assim, os pedidores de dinheiro emprestado sem intenção de pagar, os pedreiros cujas casas construídas caem, os cobradores de ônibus mal-encarados, os cerradores de pinga alheia, os donos dos bares mais imundos do reino em horários de folga, os caminhoneiros que não se lembram das famílias, os frentistas sem humor, os pinguços por profissão e mais uma vasta gama de adeptos da política-do-álcool... Há ali uma atmosfera terrível, pois é um lugar agrovisual, com ossos das cabeças dos bois espalhados, com selas dependuradas, e com música-dor-de-cotovelística tocando à revelia.
Entremos, amigos; entremos neste mar de novidades!
Refúgio dos fugidos, antro dos sem vegonha de si mesmo, aqui qualquer um pode entrar, qualquer um mesmo, até mesmo Esníguio, desconhecedor de seu próprio gênero, ali sentado todo-ostestação; até mesmo Souropeaux, filósofo-de-boteco, agora grande amigo de Greval, o sem-boa-sorte; podem até mesmo e principalmente as baratinhas incondicionais. Aliás, elas têm sua tribuna reservada, uma mesa ao centro, como lhes é de direito.
O Bar Sujo é o local dos descontentes com a pesada perseguição aos instintos. Aqui as paredes são sujas, o chão é mal-acabado, de cimento rachado. E se a balconista apanha do marido, ela está sempre sorrindo para a gente. As pessoas aqui são feias que doem; é um lugar inamorável, porque onde estamos não é possível arrumar namorada, não. Mas também ninguém esconde a essência, aqui se é e pronto, ponto final, meus amigos! As ilusões fantasiosas e fantasiadas pelo capital são deixadas da porteira pra fora. E a atendente atende bem, trata bem, uma coisa inadmissível nos lugares do alto-escalão cultocapilar!
Oh encontramos toda a beleza de poder-estar bêbado, de ser um alcoólfago, alcoólvoro, e de domir sossegadamente em cima da mesa de plástico pegajoso! Aqui encontramos até mesmo essa fatídica variedade de subpessoas de microvidas; sim, os professores também vão para lá. Só mesmo no Bar Sujo para receberem a atenção que os alunos não lhes dispensam neste absurdo Reino Sub-Imundo! Somente neste bar os seus sonhos mais distantes são realizados, porque aqui todos são tratados bem.
É de se notar que a única classe social que passa por um certo controle antes de entrar é a da das pedagogas. Isso porque muitas delas tentaram deliberadamente corromper o Bar Sujo, fazendo dele um bar “decente”. Devido a isso, o Controle de Falta de Qualidade, composto pela dona e pelos mais assíduos frequentadores, por vias de economia, só aceita as pedagogas que provam terem a preocupação centrada no ensino de fato, na educação em si, e não nas aparências e formalidades que não acrescentam nada a ninguém, e muitas vezes engessam a potência docente e discente. Essas notáveis pedagogas são, afinal, casos raros, porém admiráveis no reino. E sem se preocupar com a aparência, como todos os demais, são bem vindas!

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Salles, meu parceiro atlântido, todos adoram secretamente louvar um lugar tão desagradável, mas que centrifuga a imagem, o tratamento interessado, o culto do não-ser-eu-mesmo-pra-ser-o-que-a-novela-ou-o-seriado-mandar. No entanto, vão escondidos, que ninguém pode saber não – porque a imagem no Reino Sub-Imundo é uma religião, e um lugar que a desmerece é tido como afronta aos padrões estéticos lisocapilares.
Quando Greval quer beber, o não raro que se ocorra, esse nosso parceiro vai para o bar tomar na jarra, virar aguardente na xícara, deitar e rolar ao chão. O pessoal olha pra ele e diz: Fique à vontade, como quiser. No Bar Sujo as alegrias de Greval acontecem.

A essa altura, já são quatro horas da manhã e Souropeaux sonha com as ninfetas pseudo-atrizes-e-vero-prostitutas deitado embaixo da mesa. Greval, por sua vez, está debruçado sobre o balcão. Não queria dizer ao recém-amigo que estava ali porque brigara com a mulher. Não queria dar ao neoparceiro a chateação de ouvir reclamações conjugais. Sabia perfeitamente que problemas alheios interessam somente a ninguém.
Sim, foi para o Bar Sujo, chorou, lamentou, ouviu a popular música-dor-de-cotovelística e se identificou com a balconista feia que apanhava do marido. Ele também havia, simbolicamente, apanhado da mulher. E lhe pesava ser inferior a ela.
Os dois agora conversam. Um improvável romance começa a surgir. Greval e a balconista feia: Des Lize seu nome. Os dois se envolvendo, o mau-hálito incendiando o ar, a cachaça queimando o fígado, o fervor todo das pessoas que não se escondem atrás das montagens de Foto-Chópins. O casal agora se olha. Greval desninfando ou desninfetando conceitos. A relação além-esposa, a questão extramaridal. Estavam ao estilo sapo e lagoa poluída, mosca e lixo orgânico, cerume e orelha. Vão e estão. E é quase. Até que a ameaça de um beijo é interrompida por um estrondo. A balconista feia cai surdamente em coma alcoólico.
Poderia ser a catástrofe, poderia ser o fim de um acasalamento iniciado, poderiam ser várias coisas, mas Greval, num momento único de adequação ao sistema sub-imundo, usou lustrosamente sua capacidade etnodominadora, e não sendo bobo nem nada, arrastou-a para o toalete do bar, lá chamado de “O Inentrável”.
Suas alegrias puderam enfim ser realizadas. Foram felizes – por uma hora. Essa medida de uso e cobrança, inclusive, a hora, muito utilizada por diversos tipos de trabalhadores do Reino Sub-Imundo, entre eles: as prostitutas, os professores e os padres.

Já são cinco e trinta e o vento começa a soprar frio na Praça dos Capachos, centro de Distúrbico, onde os professores pedem suas primeiras esmolas para complementar o orçamento a que o Estado não acode. Os foliões transformam-se já em cidadãos – a tristeza volta a reinar. Enfim, a alegria do carnaval dá lugar às cinzas de uma quarta-feira comum.

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Vendo que Souropeaux continua em companhia das ninfetas, só e somente nos sonhos, e agora se assemelha a uma espécie de cão enxotado pela prefeitura, Greval já ressuscitado da latrina toma seu charuto de Nhoque e começa a olhar a rua quase deserta. Esse charutaço nervoso que ele fuma agora é uma tentativa indiscreta de imitar um funcionário seu, certo Joque Lacão, faxineiro por vocação, que conquistava renda-extra como despertador de consciências em um consultório psicomédico.
Enquanto se divertia com o imodesto cigarro, Greval, apesar de todo seu poderio aquisitivo, deixava-se influenciar pela proletariosofia, uma tendência lisocabelense inventada pelo PADECI – Partido dos Desocupados Cultos ou Incultos. Assim sendo, fumava, espairecia e seu corpo e sua alma fluíam a gastar o tempo vago a vagar.
Foi assim que pôde ver Herberto Gessi, o melhor aparador-de-grama e pior trocador-de-lâmpada de Padrid, chegando de viagem para socorrer as lâmpadas da praça principal. O bigodudo trocador viu nosso herói esconder seu rosto entre escombros e estragos da noite. Isto porque foi nesse momento que Greval notou: as universitárias estupradas, as adolescentes desmaiadas, os pais-de-família drogados, os travestis satisfeitos, os trabalhadores noturnos cada vez mais pobres e infelizes, os jovens-sem-talento-sustentados-pelos-pais-corruptos-e-magnatas voltando dos bordéis lisenses após nada conseguirem no Bar Bafo de Onça, as modelos refazendo a maquiagem após mais uma noite de prostituição a troco de desfiles e penteados; enfim, a banalidade da noite-a-noite dançando sobre o campo minado da existência: viver é muito perigoso, já dizia algum camponês de quem não me lembro o nome, ou lembro e disfarço para irritar os pernósticos acadêmicos.
Greval apanhou um bocado dos estragos, escondeu sobre os escombros de si mesmo, e saiu veloz rumo ao outro lado da cidade com sua mobilete de trinta anos de idade e cidade. Porque no Reino Sub-Imundo as mobiletes são o principal meio de locomoção dos (raros) engajados ecologicamente.

                                                  Exemplar mobiletístico

Sei que estás a rir, Bea, minha amada e atlântida, mas não se assuste. As mobiletes são floraconservadoras e geoprotetoras, devido a seu baixíssimo nível de poluição. Vislumbra, portanto, a originalidade de nosso herói. Admira-o como o admiro! E agora me deixe seguir com a história.
Greval cruzou com um gari. O primeiro gari da quarta-feira-encinzentada, o primeiro ser a desbravar e mostrar a biofobia daquele povo. O Carnaval não era a verorrepresentação do Reino Sub-Imundo, mas um disfarce lisonjeiro e oportunista. Ali não cultuavam Dionísio, e sim os presidentes loucos! Sim, Beazinha, lá os presidentes eram loucos. O que há de mais? Para um povo obtuso, nada melhor do que a manicracia. Mais tarde, minha cara, saberá detalhes sobre tal sistema, pois agora é preciso conhecer o Forró Sem-Roupa-de-Marca e o Bar Bafo de Onça, estas duas representatividades da cultura capilar, uma vero e outra pseudo, sendo que foi a uma delas que Greval se dirigiu, em seu simpático meio de transporte, quando já quase amanhecia.

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