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domingo, 24 de novembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 6 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

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CAPÍTULO II – A MOTIVAÇÃO PRIMEIRA DO RELATO: OS ALISADORES CAPILARES

Parte IDo fenômeno que dá nome e sentido ao presente livro; do fenômeno que não dá sentido à vida; o passador-de-chapinha.
“[Para mesquinhos] Tornar-se medíocre é a única moralidade que faz sentido”         F. Nietzsche

        Úmero, Bea, Lucas Salles, amigos atlântidos, amigos do peito, parceiros verdadeiros da nossa hercúlea Sociedade Atlântida, em tudo mais potente que o Reino Sub-Imundo! É chegado o momento de irmos fundo na escarrocivilização. Por ora, conhecemos sua simpatia. Agora, veremos seu terror. Já fica bem claro como somos etnopotentes e como, por isso, nunca poderemos entender perfeitamente as submentalidades lisenses.
Sim, porque era uma sociedade estranha, descabida e biofóbica. Os mais cínicos karvecistas ou os mais conservadores Dalai-Lhamas dificilmente conseguiriam encará-la. A santa mais pópi-estar de todos os contratempos, Mádi Terês de Qualcutá, ou o mais recluso monge zen-budista das regiões etetibetanas, não conseguiriam conceber a necroforma de vida ali louvada. Há somente um sentido e uma lei: mas os tambores ruflarão até chegarmos acolá.
Salles, deve lembrar-se de um tempo em que houve nanoimperialistas em Atlântida? Foi o pior do que tivemos: foi a laia, a reles, o vil; eram os baixotes com o desejo-de-potência dos gigantes. Mas creia – em toda sua asquerosidade, não se comparam aos habitantes da sociedade da imundície. Porque nunca será possível encontrar parentesco entre essa exótica sociedade a que estamos conhecendo e a nossa, amante do conhecimento, divinamente-culta e pós-pós-moderna.
Não me contenho mais, Úmero. Vem-me agora uma coceira na garganta, um não sei quê que me faz diretamente confessar: no Reino Sub-Imundo e Distante dos Alisamentos Capilares, todas as pessoas bonitas são obrigadas a ter os cabelos alisados. Não! Eles não enxergam beleza em nada que não seja o escorrimento inexpressivo, a monotonia-sequencial, aquela maniqueísmo da beleza abandonado por nós há séculos: a cabeleira alisada à base das chapas alisadoras, a que chamam simplesmente de “chapinhas”. Tanto é que sua principal lei escrita, anote bem, Bea, minha bela, para que aprenda, é: “Não é permitido que uma pessoa bonita fique um dia sequer sem alisar os cabelos, sob pena de condenação à sub-beleza, ou mesmo à feiura”.

Torna-se, portanto, necessário que lhes conte, atlantidoístas: a mídia reinodistântica dividia-se diante de uma pessoa que de fato acirrava a opinião cabelesca. Eis que surge uma terceira figura marcante neste nosso relato: Esníguio, o homem. E o acompanhando inseparavelmente, e para nós até mais interessante que ele, sua assistente e cantora em momentos de descontração, uma das mulheres paradoxalmente mais interessantes do reino, Tarja Durden. Logo falaremos dela.
Por ora, e por um lado, o jornal “As Mentiras que a Mídia Conta” imediatamente simpatizava com o referido rapaz e mostrava em suas páginas um desejo maciço de que ele vencesse, de que se sobre-e-super-pusesse, de que fosse além-do-humano: expunham suas fotos, sua fama, seu dinheiro, mostravam um lado positivo artificiosa-e-artificialmente-construído. Já o jornal “Verdades Com Que Ninguém Quer Deitar” não vislumbrava nele nada além de sua aparência-inferior e seu comportamento-interior: certa moleza, falta ou ausência de pulso e indecisão-constante que antipatizam a qualquer ser decidido na vida ou na vodca.

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Do nosso ponto de vista, enxergamo-lo assim:
Esníguio era um desses homens alisados, polidos, rigorosos, um cavalheiro mesmo, dos que tiram chapéu, abrem porta, engraxam sapatos e beijam pés. Se alguma mulher lhe dissesse: “Senta e cala”, provavelmente ele rolaria pelo chão só para agradá-la; e, por certo, seria repreendido, porque as instruções eram justamente para que ficasse só e somente sentado e calado. Pode-se dizer dele que, se fosse um cãozinho, seria púdol-na-coleira: estridente. Em traços gerais, era um servo, daqueles que as mulheres humilham, maldizem e comentam com as amigas nos banheiros públicos: “Esse rapaz não entende nada de nós”.
Mas era ricaço, magna-Thor, e estava acima da elite, acima do céu, acima do chapéu de Napoléo Bon-à-Parte, famoso michê-de-luxo distante. Portava de roupas caras, milagrosamente caras, monstruosamente auronárias, capazes de valer até mesmo a patente da Maicousoft, a fórmula da Coca-Esfola, o câncer do Méqui-Míquei: umas empresas de grande porte daquela sociedinha.
Seu emprego, por sua vez, era dos mais etnoimportantes do reino, afinal exercia a célebre função de alisador de cabelos; ou como a perifeía dizia: chapinhador; ou, ainda, como dizia a classe abestada: passador de chapinha. Sim, Karenzinha, veneradora dos cabelos cacheados, ele era um aplicador-das-técnicas-de-chapinhar-os-cabelos; era, como dizemos nós, atlântidos: um formulador-de-artificialidades-da-imagem.
Chapinha, para vocês atlântidos que desconhecem tal tortura autodesejada e inimaginável, é a prática de fritar e triturar os cabelos através de uma máquina com aparência de arma-de-fogo até que eles percam gradativamente sua resistência, sua força, seu vigor, sua beleza, e beleza natural... Ah, sim, ia me esquecendo disso, esses alisadores também servem à padronização absoluta dos cabelos escorridamente idênticos. Vejam uma foto que consegui nas Lojas Multi-Titica:


                                Efeitos reais de uma chapa alisadora de marca


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