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sábado, 16 de novembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 5 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

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A publicação anterior terminou na primeira frase do parágrafo abaixo...

O segurança, que se supõe neopotente, arregaça as mangas-da-camisa-emprestada e a cara do homem. Esse funcionário a que me referi estava adoentado pela “terno-fantasia”, doença que atacava os pobres do Reino Sub-Imundo, infiltrando neles um espírito-suíno que os fazia se sentirem como os capetalistas-seus-patrões, por se vestirem como eles, apesar de nunca entrar nem participar das festas, ficando sempre à porta estacionando os carros e carregando guarda-chuvas para que os engolidores de auros, suas esposas e seus filhotes não se molhassem.
O negro apanhou por nada. E nada, nesse caso, amigos, deve ser entendido como o fato de ter determinada cor da pele, determinada falta de dentição e indeterminada posição social. Porque ser pobre é pré-requisito para ser bandido, na concepção lisense. E o sangue jorra, a verdade chora, a autenticidade é quebrada, mas nenhum dente é quebrado, pois dentes não há.

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O que há é apenas um bafo de onça que por ali perfuma as narinas-de-plástico das madames super-recosturadas. O que há é apenas um senhor velho, barbudo, cabeludo, mal-cheiroso, pobre, de órgãos já podres, miserável, desprezado, portador de possíveis remelas, piolos, sarnas e perebas, um homem que não tem nem guarda-roupa nem usa guardanapo, visto que para este uso seria necessário antes comer – hábito este que lhe falta. As velhas o olham com a supremacia dos imortais, com a pré-potência dos sem-potência, não percebendo que a diferença delas para ele estava simplesmente em alguns mil ou milhões de auros, talvez herdados, roubados, conquistados em um casamento bem arranjado – ou em alguns mil ou dez mil dias que logo levariam todos ao túmulo, cadávares adiados que todos são, ou somos. Não nos admira concluir, Gustavo Caipira, solitário rapaz, que o Bar Bafo de Onça é incapaz de autoinspeção e vive o paradoxo da pseudonomenclatura: Bafo de Onça não entra.
Assim é que o negro fica estirado ao chão como uma criança que é repreendida por dizer a verdade. De dentro do bar, algum burguês oportunista, com fama de inteligente, cria uma fácil-máxima: “A escória ama o chão. Ou ao menos nele vive a maior parte do tempo”. Enquanto isso, a saliva do negro desce pelo meio-fio rumo ao esgoto, que parece temer ser poluído por tão medonho líquido. Não podemos deixar de rir do fato de que seus piolhos praticam salto em distância pelas cabeleiras alisadas das madames; de que seu hálito ainda paira, podre, pelo ar antes habitado por perfumes inebriantes; de que sua presença ainda infecta os assuntos antes levianos, e depois levianos, da classe adulterada pelas plásticas e reconstruída em corpos de plástico. Viva o silicone, o botox e as lipoaspirações!
Enquanto isso, a lombriga-solitária do enxotado senhor reclama por uma nutrição qualquer. O velho, neste instante, come terra e lambe a porta-de-ferro do bar – sintomas certamente de demência, na opinião de uma senhora bicentenária, dona de um belo sorriso fixo (e imóvel), muito à semelhança de durex pregado à face. Pode-se ver que o frio estilhaça os ossos do dono-do-verdadeiro-bafo-de-onça, enquanto o dono-do-falso-Bafo-de-Onça já ronca alto em uma mansão em que mendigos são queimados, se tentam se aproximar.
Greval, por sua vez, já às sete da manhã, é chamado pelo genial sistema de senhas e entra no bar mais chique e agora também mais vazio da cidade. Sozinho, ele olha o cardápio e logo conclui que aquele estabelecimento cobra pela cerveja o mesmo preço que o Bordel das Rejeitadas do Demo e de Damo, o mais caro do reino, onde só as mulheres conhecidas como aposentados-do-sexo podem trabalhar. Notem, amigos atlântidos, que a diferença entre os dois bordéis, digo, comércios está em que, enquanto no prostíbulo há prostituição esclarecida por todas as partes, no bar há somente um suposto-meretrício, proposto a iludir os excluídos da prática da autoelitização.
Não se desespere, Eduardo Dudu, você que é ginecoamante, pois já hei de explicar os sentidos ocultos de tal “suposto-meretrício”. É que existe no Reino Sub-Imundo, em profunda surdina, um folheto preciosíssimo e raro chamado “Manual da Interesseira”, conhecido somente pelas especialistas e jamais confessado por nenhuma delas, nem mesmo na Casa dos Horrores, maior centro de tortura lisocapilar. O manual relata diversas ações femininas na sociedade, mas principalmente os critérios a se seguir para ser uma suposta-meretriz. Eis:

Página 17

Manual da Interesseira (fragmentos):

1. É preciso fingir não cobrar pelos esportes horizontais tão almejados pelos homens – regra principal, essa é a melhor maneira de não se deixar confundir com as aposentadas-do-sexo e manter o estatos indispensável a uma mulher de classe;
(...)
3. É fundamental escamotear seu real interesse, o que quer dizer que não se deve de modo algum deixar clara que sua meta é alcançar e desfrutar do volume bancário e do modelo do carro do interessado e interessante;
(...)
7. Só se deve sair com rapazes que ganharam de presente do papai um carro-de-raça ou que ao menos mentem que o carro-do-pápi lhe foi dado, maneiras essas de se evitar custos com o terrível transporte coletivo sub-imundo e de se conquistar estatos em meio às rodas sociais das supostas-meretrizes;
8. Uma suposta-meretriz nunca paga nada. É preciso sair com moços, homens ou velhos que paguem todas as bebidas e comidas que houver, que pague a gorjeta do garçom, a bala ou a goma-de-mascar, que pague até mesmo o que as pseudoamigas consumirem ou precisarem;
(...)
10. É necessário só sair com rapazes que tenham importância diante da sociedade, já que uma suposta-meretriz precisa se dar ao respeito alheio, mas nunca ao próprio;
11. É quase regra evitar o ataque a rapazes inteligentes, a menos que sejam suficientemente ricos a ponto de compensar tal chatice;
(...)
17. É indiferente se o macho em questão é bonito, pois quem gosta do belo são os artistas.

Quanto aos moços que freqüentam o Bar Bafo de Onça, suas orientações não vêm de manual algum e, em verdade, são bem mais simples e práticas. Em princípio, não devem trabalhar; se trabalharem, tem que ser para o pápi, pra ganharem muito sem terem que se esforçar; em último caso, devem trabalhar no alto-escalão do governo, nos chamados cargos-fantasmas, em que nunca aparecem, mas gozam de grande fama, e são temidos. Tais moços costumam ser chamados de Vips pelas profissionais do horizonte, o que significaria em português mal-traduzido “Pessoas-Muito-Importantes”, mas que eles próprios traduzem de forma diversa, como: “Vagabundos-Interessados-em-Prostitutas”.
À parte de toda a realidade, enquanto divaga, Greval se descobre empurrado para fora do bar, e percebe que a essa hora não há ali sequer aquelas prostitutas-da-elite disfarçadas de nata-da-sociedade da qual falávamos acima. O Bordel dos Ricos também havia fechado àquela hora.

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Na próxima semana, será iniciado o CAPÍTULO II – A MOTIVAÇÃO PRIMEIRA DO RELATO: OS ALISADORES CAPILARES - Parte IDo fenômeno que dá nome e sentido ao presente livro; do fenômeno que não dá sentido à vida; o passador-de-chapinha.

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