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sábado, 19 de outubro de 2013

REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 1 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo





Reino Sub-Imundo
Fernando Sales







Baseado em fatos reais.                                                                                                                              

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Aos titiquistas e digitalistas.


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      MAPA DO MUNDO OBTUSO E DO REINO SUB-IMUNDO






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ANÁLISE CULTURAL ELEMENTAR

Nome oficial: Reino Sub-Imundo e Distante dos Alisamentos Capilares.
Nome popular: Reino Sub-Imundo.
Língua: modês.
Nacionalidade: sub-imunda, encardida, reinodistântica ou lisense.
Moedas: auro e pólar.
Países: Damo, Faixa de Paza, Faixa de Pizza e Agito.
Principais cidades: Distúrbico, Padrid, São Nunca, São Ninguém e Nhoque.
Principais guerras: Segunda Guerra Outonal, Primeira Guerra Hibernada, Guerra Morna Entre as Faixas, Guerra Surpresa contra o Mundo Obtuso e Guerra da Divina Comédia.
Clima: chuvoso; artificialmente ensolarado.
Passatempos: assistir a desfiles de modas, assistir a jogos de axilabol, assistir a rodeios, assistir.
Religiões oficiais: Idademedismo e Jucaísmo.
Religiões não-oficial: greválica.
Comidas tradicionais: rabiole, pizza, escargô, ostra, pimenta e nhoque. 

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 Índice

Prólogo – O exorcismo de mim mesmo
Capítulo I – Alguns neo-heróis sub-imundos em seus primeiros atos notáveis
Capítulo II – A motivação primeira do relato: os alisadores capilares
Capítulo III – “Do amor e outros demônios da luz”
Capítulo IV – Núcleo socioilógico do Reino Sub-Imundo
Capítulo V – Da mediocridade à mediocridade
Capítulo VI – O monumental capítulo em que um líder se estarrece às portas da mendicância
Capítulo VII – De filósofo-de-boteco a contrabandista-de-livros
Capítulo VIII – De etnodminador a ajudante-de-mendigo
Capítulo IX – A violência como redenção dos fracos ou a profundidade até então ignorada
Capítulo X – Os mais importantes relatos da periferia lisense ou autoafirmação titiquista
Capítulo XI – Sub-religiões ou o comércio da fé
 Capítulo XII – Algumas curiosidades sobre a elite econômica liso-capilar
Capítulo XIII – Desenlace de um capeta
Capítulo XIV – Desenlace de um santo
Capítulo Final – O resgate

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PRÓLOGO – O EXORCISMO DE MIM MESMO
“[A Filosofia de massas] É usada até hoje para manipular as pessoas e garantir o status quo do capitalismo, levando as pessoas ao consumo exagerado, às modas sem sentido, à construção de líderes títeres, à manipulação das massas, como no nazismo, nas eleições, na criação de necessidades artificiais e não necessárias, que são tornadas necessárias e naturais, e assim por diante” – Francisco Martins de Souza

Contarei a presente história porque me afogo em autotrevas, porque me consumo em um perverso automartírio. Destruir a si mesmo é uma comédia humana rotineira neste novo mundo; tecnicamente, pode-se dizer que é até um hábito, não chega sequer a ser novidade. Venho, portanto, para destruir arredores. Sou uma espécie de camicase-sem-ideologia-a-defender – ainda. Vim para difundir entre as donzelas desse Reino Sub-Imundo o suor proletário e fétido de que tanto elas têm escapado! Ora, não sou só um funcionário, madames! Acredite, apesar do que minha carteira-de-semi-escravidão diz, eu sou um homem-bomba. Eu vou explodir-me e explodi-las ao final deste livro!
Isso posto, meus amigos atlântidos, verdadeiros motivos desta obra, quero apresentar-lhes alguns de nossos heróis, essa gama mendicante e gloriosa de nossos heróis. Eis Greval Desconcertado, nosso Camões ou Quixote, a lutar contra a burrocracia; eis Souropeaux, glorioso ex-mendigo-e-ex-filósofo que se tornou traficante-de-livros; eis também, atrás de um leque da marca Meabano, Esníguio, o alisador-de-cabelos, maior espectador de desfiles de todo o reino! Essas e outras fortes presenças passeiam sobre minha vista como se ainda estivessem aqui diante de meus olhos, como agora há pouco, da última vez em que os vi...
Ah, eis que surge Lúcsia, nossa Dulcineia Del Toboso. Oh, mulher admirável, como poderia faltar em tão marcante rememorar? Que me importa se foste a meretriz da bondade, se vendeste a alma à justiça? Sim, a ti eu digo sim, e a ti venerarei até o fim de minhas páginas!
Não me esquecerei de vós, ó João Pedro II, meu caro e envenenado governante! Eis nosso guia em meio à cacoexistência lisense. Quero abraçar-vos e fazer convosco o melhor discurso paulítico e pobrelista jamais existente. Quero ser o desgosto de vossa fama de orador-e-oráculo. Não mereceis serdes chamado tão injustamente de Vilão!
Francos atlântidos, as histórias que temos visto não fazem mais do que deitar panos quentes sobre as feridas-dos-de-sangue-azul e afagar confortavelmente os benefícios da pós-modernidade; as histórias que temos ouvido, meus amigos, não passam de tapinhas inocentes nas costas de uma elite irresponsavelmente alojada em belíssimos castelos de sangue só-operário. Eu quero ser o vinagre que infecta os vinhos de Fabrícia. Quero ser a prisão-do-ventre-intelectual dessa neonobreza que tem sempre nos lançado sua verborréia. Eu não quero ser paparazzo em seu aniversário de cachorro, madame! Ah, não realize meu pior pesadelo: não me lance ao campo-florido-e-superficialmente-feliz da futilidade.
Enfim, meus caros de Atlântida, meus parceiros superiores, quero pedir inspiração não a dezenas de ninfas do Tejo, esse típico exemplo apolíneo de desprezo à realidade, mas quero me inflamem o coração milhares as belezas ignoradas nos guetos da sociedade liseta, ultrajadas e humilhadas por serem matéria-prima para a banalização da sexualidade infantil e pré-adolescente. A partir delas é que hei de nutrir meu ódio, meu sangue fervente!
Oh amigos, não lhes desejo a beleza de uma vida serena em apertamentos de metópolis nem o excessivo Agito dos zumbimaníacos. É preciso conhecer, é preciso mergulhar no Sub-Imundo para conhecê-lo! E é cá que nos encontramos! E é aqui que nós moraremos e provavelmente morreremos, atlântidos! Mas se sobrevivermos, voltaremos ao Paraíso Perdido renascidos. Mergulhemos! Mergulhemos!

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CAPÍTULO I - OS NEO-HERÓIS SUB-IMUNDOS EM SEUS PRIMEIROS ATOS NOTÁVEIS

Parte I – do culto anual a Dionísio, sedento deus do vinho; das primeiras tendências de Souropeaux, filósofo-de-bar.

Ocorre, meu amigo Úmero, que Souropeaux fazia o tipo observador, enquanto o fogo ardia nos corações dos dionisíacos foliões. Era uma multidão que coreografava nesse exato momento a música-do-corpo, importada diretamente do Mundo Obtuso, continente situado a oeste do Reino Sub-Imundo. Tal música era na verdade mantida por um tambor batido repetidamente no mesmo ritmo e sua letra era uma instrução sistemática de movimentos dada por um belo cantor (de beleza criada e garantida pela destacadíssima mídia lisense).
As dançarinas improvisadas pela política-do-álcool seguiam rigorosamente suas ordens. Pequenas mãos e grandes pés agora se levantam, abaixam-se, batem-se, giram, contorcem-se. Eis que o Carnaval alisado se assemelha profundamente a uma orgia de proporções estrondosas, apoteóticas, bacantes, na visão do filósofo Souropeaux, que observa de longe, cremos, friamente.
Não é que desembarcamos exatamente na Festa da Carne, Úmero Card’Osso?! Molhe um copo, tome um gole, estamos apenas a começar esta longa e espetacular jornada por caminhos de Hades.
Um susto! Casais começam a se digladiar e a se amar, simultaneamente, impunemente, sinceramente, pelo chão, em pleno centro de Distúrbico, essa mais importante cidade reinodistântica. A tão desavergonhada liberdade sexual, Souropeaux tenta encarar com naturalidade, simulando uma aceitação pacífica, que não tinha, aos atos ditos imorais.
E, de repente, em meio àquela praça, que é o centro de toda cultura sub-imunda, em um estilo razoavelmente romano-bacante, todos os cinqüenta mil presentes, entre subumanos e sobre-viventes (menos o filósofo, menos o filósofo abismado!), estão sem roupa, nus em pelo, aos modos de se expressar de minha avó.
Em meio a essa grandiosidade, um homem se destaca. É o presidente do Reino Sub-Imundo, João Pedro II, que está sendo carregado por cinco menores de idade.  Souropeaux, meticuloso, faz anotações em sua caderneta, enquanto esconde, juntamente com sua inveja, o desejo de ser só-mais-um-com-o-todo. Seu isolamento social pesa, sua crosta de ressentimento massacra, sua adiposidade-cerebral o descontenta. (Ele não sabe, Úmero, o bem de ser só. Ainda não descobriu como o encontro consigo mesmo pode ser útil para a potência interpessoal). E, no momento da integração maior, em que o cantor de dança-do-corpo dá sua última coordenada, indescritível aqui, mas que soa automaticamente como uma instrução atlético-sexual, o ser isolado, nosso Souropeaux, desfaz-se em lágrimas.
Temos à nossa frente, amigos atlantes – Card’Osso, Gustavo Caipira, Lucas Salles, Lucca Moreti, Bea Rodrigues, João Martins, Eduardo Dudu, Karen Winehouse –, vocês que são minha clarividência noturna, guias mesmo de minha caminhada... Temos a Triste Figura de um filósofo-cultuador-da-morte, classe sofredora que mendiga por essas ruas distantes. Notem vocês que me ouvem, oh atlântidos, que agora começam a conhecer este reino: Souropeaux faz parte de uma linha de pesquisa arcaico-acadêmica – a teoria.

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