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sábado, 26 de outubro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 2 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

Se você não leu a primeira parte, leia-a antes:
http://professorfernandoletras.blogspot.com.br/2013/10/reino-sub-imundo-da-capa-ate-pagina-8.html

Parte II – Em que fica nítido que o bar é onde a verdade prevalece e as amizades se fazem; do surgimento de Greval, herói de nossa gente, que provavelmente será assassinado em sua primeira participação e; o melhor bar do mundo.

Desanimado com sua abstinência social, Souropeaux procura agora um bar onde possa tentar uma integração com Dionísio. Pede, portanto, uma poliquantidade de bebidas e senta-se em uma mesa mais empoeirada que as estradas de terra de São Ninguém dos Peregrinos. Na gravação digital, que a todos alicia, o vocalista entorpece os ouvintes embasbacados ao cantar:

Mãe, acabei de matar um homem:
Coloquei uma arma contra sua cabeça,
Puxei o gatilho e agora ele está morto.
Mãe, a vida mal tinha começado
Mas agora estou perdido e joguei tudo fora

Sem dúvida, amigos atlantes, versos tão líricos apetecem à maioria dos corações tombados. Não seria sem motivação que Souropeaux começaria ali uma filosofia da morte. Essa provavelmente seria baseada na idéia de que o suicídio é a salvação dos assassinos arrependidos; de que a consciência pune mais que as grades, etc. Contudo, foi impedido por uma voz que lhe salvou de si mesmo:
- Tape os ouvidos. Não devemos ouvir as pessoas de queixo saliente. São invejosos! Devemos louvar a vida, sempre, pois a vida é que vale a pena! O queixo quando é demasiado faz com que as pessoas tornem-se infelizes e cantoras de música-sem-sorrisos. É capaz de infelicidades tamanhas que só podem ser comparadas à obesidade crônica na adolescência, à impotência na juventude e à abstinência sexual eterna das viúvas ou das casadas há décadas, salvo vastas exceções, inclusive quanto aos queixos!
Sem saber ao certo de onde surgia aquela voz e aquela teoria estapafúrdia, Souropeaux pensou consigo: “São os otimistas ridículos; maldito Cândido que um Voltaire criou!” Pensando isso, não percebia que quem se aproximava não era uma triste figura, como a sua, mas uma Figura Notável, que passara então invisível aos olhos de todos, por um fenômeno de peculiaridades ultralisenses: o anonimato lançado às pessoas originais. Aos nativos, cabia mais o que podemos chamar aqui de “cultura de massa” ou de “fecalidade intectual”, se quisermos ser exatos; e queremos.
- Tenho ouvido falar de ti, Souropeaux, um pobre homem infeliz, que não sabe o que é abraçar uma humanidade inteira.
O filósofo-de-bar estranhava o estranho a lhe ensinar a vida. Não deveriam os filósofos ensinar os leigos? Não estariam os papéis invertidos? Não seria ele próprio, então, um ser-afundado-no-não-viver?
Vá se acostumando, Bea, a essas parvoíces típicas do nosso aconchegante reino. Você, minha querida, bem sabe de nossa posição privilegiada, mas nem por isso devemos deixar de observar os muitas vezes assustadores comportamentos lisenses, pois este é um livro de aprendizados. Principalmente para nós mesmos.
Na mesa em que Souropeaux estava, sentou-se pois Greval, dono das mais variadas características, das quais, no entanto, não falarei. Ou falarei. Falarei.
É inevitável notar, cara Rodrigues, que nosso herói agiu, ao menos momentaneamente, de modo muito fingido, posto ser dos maiores admiradores da banda do queixudo vocalista e também dos queixudos em geral – é que Greval adorava a ambigüidade e a ironia, tinha fé profunda nelas, e ninguém o entendia bem por isso, já que não conseguiam saber quando falava sério, e se falava. Esse por sinal era um grande gosto seu.

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No mais, era alto funcionário da burrocracia reinodistântica: um etnodominador. Suas principais ocupações ficavam assim expostas em sua sala inacessível à população comum:
“- Manter a massa humana na macroignorância e na microvida;
- Cooperar para a boa organização das ‘perdíveis-de-vista’ filas de hospital;
- Gerir de modo perfeitamente cínico o dificílimo acesso a informações administrativas;
- Contrafazer de modo discreto os avanços medicinais que diminuiriam o lucro das polinacionais-empresas-farmacêuticas, parceiras de nosso Estado Maior;
- Ignorar sistematicamente os buracos nas estradas e, se necessário, prometer avanços imediatos;
- Organizar o sistema de doações de cestas básicas somente em vésperas de eleições;
- Prender os pequenos ladrões;
- Soltar os grandes, ou mesmo evitar que lhes prendam;
- Animar o povo a concentrar suas subvidas em rodeios, as novidades da moda e jogos de axilabol; e
- De modo geral, executar com primazia todas as funções básicas de qualquer burrocrata comtiano”.
Agora que falei o que não deveria ter falado, porque se falasse atrapalharia o desenvolvimento desta parte, como bem atrapalhei mesmo, volto à mesa onde se encontram esses já amigos, Souropeaux e Greval.
Como o filósofo não falava nada, e estavam ali as duas figuras, a triste e a notável, Greval resolveu, por espontânea simpatia, expor ao neoamigo algumas de suas atitudes mais notáveis, que, por conseguinte, renderam-lhe o estatos de mau etnodominador:
- Veja bem, Souropeaux, acredito nas qualidades do povo, e até luto por ele: inventei um sistema de senhas, para que as pessoas não precisassem mofar e apodrecer lentamente em filas de hospital até a morte, devoradas pelos fungos-do-descaso; impedi a corrupção de piche, esse fenômeno tão degradante de nossa sociedade, que se baseia no asfaltamento de nossas estradas com finas camadas de asfalto abaixo das quais há lixo hospitalar e orgânico, barateadores natos que são da construção e enriquecedores fatídicos dos construtores; combati a lavagem de dinheiro nos tanques, nas máquinas de lavar e até na prefeitura; lutei por uma escola pública de qualidade, sim, por uma escola pública de qualidade, que tivesse carteiras para os alunos sentarem, comida para comerem e até mesmo salário para os professores também poderem comer!; defendi a democracia no voto, o direito de as pessoas terem arma e se defenderem, já que o Estado não as defende! Ora, Souropeaux, luto até pelo direito de as pessoas viverem!
Nesse momento, Caipira, meu parceiro de vodca-poética, os presentes no bar todos param. Um cidadão até torto de tão inclinado à direita, arranca dois facões do bolso e começa a cortar melancias ao meio em uma só batida, num fenômeno de proporções titiquistas transmissíveis em programas do horário nobre. Certamente é um senador, um desses seres sobrelegais, combatendo os absurdos da corrupção greválica. A testa de nosso herói inunda-se de suor como alguns bairros periféricos se inundam após quinze minutos chuvosos... Teme por sua sobrevida e faz um retromovimento espontâneo. O senador lateja como numa sessão do plenário justa: inaceitável! É uma típica briga de bar reinodistântica: sem motivo nem finalidade.
Lucas Salles! Salles! Acorde, meu parceiro! Nosso herói não pode morrer já, mal pudemos ver o brilho de sua pele oleosa! Oh sim, era oleosa como a minha a dele! Sorte a nossa, atlântido, que ele não era bobo nem lerdo e, numa astuta lembrança de São Pedro, negou três vezes aquilo que tinha defendido como sua vida, dizendo que o cidadão à direita havia se equivocado, que ele, Greval, na verdade lutava pela subvida das micropessoas. O politicalhão hesitou, não gostava de parar uma inútil-briga, mas o rapaz tinha sua certa insanidade. O senador ardia por ceifar ao menos o insinuante queixo grevalesco: saliente, feio, original. Era pura inveja! E rápido deu-se um conflito, um raro conflito interno em um adiposo burgocrata. Porém ele, após alguns segundos, desajeitado, lateralmente guinando o pescoço como um bêbado ao vento, aos poucos foi desbufando, até se acalmar e alcançar o centro, nunca a esquerda!
Quase, Úmero, ficamos sem um dos nossos principais heróis. Por isso lhe digo: as idéias devem ser abafadas. Ora, caríssimo amigo, não se pode fazer escândalos no Reino Sub-Imundo. Aqui, saiba logo, há um código de Não-Direitos-do-Povo. E viver, de maneira alguma, pode ser considerado um direito.

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Passada a primeira impressão acerca de Greval e Souropeaux, podemos agora deixar nossos personagens conversando: porque o bar é para alegrias, sempre. Resta-nos, de momento, ouvir suas primárias (talvez eu tenha querido dizer: primeiras?), mas interessantes ideias:
- O senador queria matá-lo – e Souropeaux ria a alegria da política-do-álcool.
- Não fosse meu bom-humor, poderia mesmo ter morrido.
O filósofo fez-se de pseudoentendedor e Greval percebeu a necessidade de reexplicar.
- Só quem sabe rir de si mesmo pode rir dos outros. Eu ri de mim mesmo ao falar que defendia a subvida de minipessoas. Pensei: como sou covarde e fraco; como consigo de um momento para o outro negar as coisas que mais defendo?! Fui um inimigo brilhante de mim mesmo e, ao mesmo tempo, meu salvador!
- Mas devemos ser sérios, devemos buscar a verdade.
- A verdade é a ironia, meu caro. Não há o que seja tão sério assim. No fim, tudo pode ser resumido em uma grande piada – que somos nós mesmos. Mais que a ironia, a autoironia deve ser nosso darma.
A verdade é a ironia. Está aí algo que Souropeaux certamente não havia pensado. Ele, ao mesmo tempo em que estranhou, quis saber mais. E o querer saber mais, meus amigos, meus louváveis amigos, todos já sabem o que significa: é a ponta de uma amizade que se faz. Ora, é no bar que as melhores amizades surgem. Repetidamente lá! E melhor que seja no Bar Sujo, que agora surge diante de nossos olhos!
Mas antes, é necessário esclarecer que, minutos depois, o senador foi tomar algumas tequilas com Souropeaux e Greval, enquanto falavam de ninfetas-ninfomaníacas da tevê e dos melhores times de axilabol da temporada. Sim, Gustavo Caipira, sábio Caipira, são exatas as suas palavras: “A ausência de sentido é uma das principais motivações daquele povo alienado”. Creio porque é absurdo.

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