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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

MÁXIMAS CITAÇÕES POR TEMA - BESO - ÚMERO - LIMA BARRETO - RENATO RUSSO - PARTE I


CITAÇÕES POR TEMA - BESO - ÚMERO - LIMA BARRETO - RENATO RUSSO

Máximas por tema

BRASIL
“O Brasil tem público, não tem povo” – LIMA BARRETO

SOBRENATURAL
“Não contemplar mais o sobrenatural, mas fazer parte dele” - BESO

DESTINO
“Já parei de caminhar em ascensão ao Previsível que em vão conheço” - BESO

ALEGRIA
“Minha alegria, como uma bandeira baixa no mastro, de tão rápida descansa parada num lugar que não parei” – BESO

VIDA
“É o resto da vida que espera-me como uma prostituta na esquina” – ÚMERO

POSSE
Não é me dominando assim
Que você vai me entender – RENATO RUSSO

SOLIDÃO

“Não há nada mais sozinho do que ser inteligente” - Sampaio

Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou – RENATO RUSSO
Já estou cheio de me sentir vazio – RENATO RUSSO

Quero ter alguém com quem conversar
Alguém que depois
Não use o que eu disse
Contra mim – RENATO RUSSO

Nada mais vai me ferir
É que eu já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê – RENATO RUSSO


CITAÇÕES POR TEMA - BESO - ÚMERO - LIMA BARRETO - RENATO RUSSO

Veja outras citações em:

Oscar Wilde - frases polêmicas, em:
http://professorfernandoletras.blogspot.com.br/2013/08/frases-polemicas-de-oscar-wilde-genio.html

Citações do Clube da luta, em:
http://professorfernandoletras.blogspot.com.br/2013/09/clube-da-luta-chuck-palahniuk-inclui.html


COC - 2013 - MATÉRIAS DO SIMULADO ÁPICE - PROVA - 3° BIMESTRE


COC - 2013 - SIMULADO ÁPICE - PROVA - 3° BIMESTRE

Simulados Ápice

7° ano 
Interpretação de textos.

8° ano
Figuras de linguagem.

9° ano
Crase
Regências verbal e nominal;
Estrutura das palavras.

1ª série
Romantismo – contexto, características e em Portugal.

2ª série
Modernismo – 1ª e 2ª fases completas.

2a prova do bimestre

9° ano
Crase;
Estrutura das palavras;
Figuras de linguagem – anacoluto, elipse, hipérbato, anáfora;
Interpretação de textos.


COC - 2013 - SIMULADO ÁPICE - PROVA - 3° BIMESTRE

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

Conto A Cartomante - Machado de Assis - Realismo no Brasil


Conto A Cartomante - Machado de Assis - Realismo no Brasil

A Cartomante
Machado de Assis

Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.

 QUESTIONÁRIO: 

1) Qual é o recurso utilizado pelo autor para produzir suspense no começo do conto?

2) Que características são atribuídas a Rita? Como as participações dela acabam interferindo na história?

3) Por que se pode dizer que o conto pode ser uma crítica às “superstições”?

4) Pode-se pensar que a cartomante é comparsa de Vilela? Justifique.

5) Que contradição Camilo comete ao longo da história?

6) Há uma frase que se repete em boa parte do conto. Qual é? No que ela ajuda no desenvolvimento do texto?

Obs.: quem tiver dúvida nas respostas, peça nos comentários.

Conto A Cartomante - Machado de Assis - Realismo no Brasil

Acesse a outras dicas de leitura em:



domingo, 22 de setembro de 2013

BARROCO - FRASE - PENSAMENTO - CARPE DIEM

BARROCO - FRASE - PENSAMENTO

"Quando nascemos, é como se enchêssemos as mãos de areia. Daí em diante, a cada ano, mês, dia, segundo, a areia vai escoando entre nossos dedos, até que inevitavelmente um dia, ela acaba. Carpe diem".

Fernando Sales.

Um pensamento meu para definir a concepção de vida e morte no Barroco.


As vaidades da vida humana - Harmen Steenwyck

BARROCO - FRASE - PENSAMENTO

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Modernismo no Brasil – 2ª fase - Geração de 1930 - 1a parte


Modernismo  no Brasil – 2ª fase - Geração de 1930

Passado o primeiro momento, de preocupação principalmente estética, a literatura volta-se para a denúncia social, com enfoque realista. O regionalismo torna-se destaque nesta segunda fase. É o que vamos chamar de arte engajada.

Contexto histórico

1929 – crise da bolsa de Nova Iorque
1930 – Revolução de 1930
1939-1945 – Segunda Guerra Mundial
1937-1945 – Estado Novo

A PROSA

Graciliano Ramos

- prosa enxuta, direta, sem adjetivos, só escreve o essencial;
- denuncia a situação do nordestino (o particular), ao mesmo tempo que denuncia todo e qualquer homem que viva miseravelmente (o universal).

Principais obras: Vidas Secas; São Bernardo; Angústia; Memórias do Cárcere.

São Bernardo - Graciliano Ramos
Este é, sem dúvida, um dos romances mais densos da literatura brasileira. Uma das obras-primas de Graciliano , é narrado em primeira pessoa por Paulo Honório , que se propõem a contar sua dura vida em retrospectiva, de guia de cego a proprietário da Fazenda São Bernardo. Ele sente uma estranha necessidade de escrever, numa tentativa de compreender, pelas palavras, não só os fatos de sua vida como também a esposa, suas atitudes e seu modo de ver o mundo. A linguagem é seca e reduzida ao essencial. Paulo Honório narra a difícil infância, da qual pouco se lembra excetuando o cego de que foi guia e a preta velha que o acolheu. Chegou a ser preso por esfaquear João Fagundes por causa de uma antiga amante. Possuidor de fino tato para negócios, viveu de pequenos biscates pelo sertão até se aproveitar das fraquezas de Luís Padilha - jogador compulsivo. Comprou-lhe a fazenda São Bernardo onde trabalhara anos antes. Astucioso, desonesto, não hesitando em amedrontar ou corromper para conseguir o que deseja, vê tudo e todos como objetos, cujo único valor é o lucro que deles possa obter. Trava um embate com o vizinho Mendonça, antigo inimigo dos Padilhas, por demarcação de terra. Mendonça estava avançando suas terras em cima de São Bernardo. Logo depois, Mendonça é morto enquanto Honório está na cidade conversando com Padre Silveira sobre a construção de uma capela na sua fazenda. São Bernardo vive um período de progresso. Diversificam-se as criações, invade terras vizinhas, constrói açude e a capela. Ergue uma escola em vista de obter favores do Governador. Chama Padilha para ser professor. Estando a fazenda prosperando, Paulo Honório procura uma esposa a fim de garantir um herdeiro. Procura uma mulher da mesma forma que trata as outras pessoas: como objetos. Idealiza uma mulher morena, perto dos trinta anos, e a mais perto da sua vontade é Marcela, filha do juiz. Não obstante conhece uma moça loura, da qual já haviam falado. Decide escolher essa. A moça é Madalena, professora da escola normal. Paulo Honório mostra as vantagens do negócio, o casamento, e ela aceita. Não muito tempo depois de casado, começam os desentendimentos. Paulo Honório, no início, acredita que ela com o tempo se acostumaria a sua vida. Madalena, mulher humanitária e de opinião própria, não concorda com o modo como o marido trata os empregados, explorando-os. Ela torna-se a única pessoa que Paulo Honório não consegue transformar em objeto. Dotada de leve ideal socialista, Madalena representa um entrave na dominação de Honório. O fazendeiro, sentindo que a mulher foge de suas mãos, passa a ter ciúmes mórbidos dela, encerrando-a num círculo de repressões, ofensas e humilhações. O casal tem um filho, mas a situação não se altera. Paulo Honório não sente nada pela sua criança, e irrita-se com seus choros. A vida angustiada e o ciúme exagerado de Paulo Honório acabam desesperando Madalena, levando-a ao suicídio. É acometido por imenso vazio depois da morte da esposa. Sua imagem o persegue. As lembranças persistem em seus pensamentos. Então, pouco a pouco, os empregados abandonam São Bernardo. Os amigos já não freqüentam mais a casa. Uma queda nos negócios leva a fazenda à ruína. Sozinho, Paulo Honório vê tudo destruído e, na solidão, procura escrever a história da sua vida. Considera-se aleijado, por ter destruído a vida de todos ao seu redor. Reflete a influência do meio quando afirma: "A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste." Concluímos, portanto, que o ser individual entra em crise, e é nesse momento que a obra torna-se grandiosa. O homem cruel agora torna-se simplesmente homem.

Vidas Secas – narra a história de uma família miserável, a de Fabiano, que desce do Nordeste para o Sudeste em busca de emprego e melhores condições, mas que, claro, só encontra miséria e mais miséria pelo caminho. Vale notar que os personagens são animalizados, quase não falam, e que a cachorra Baleia pensa mais do que os meninos, que nem nome recebem.
A história inicia-se em 1940 com uma família pobre do sertão nordestino em busca de um lugar para sobreviver. Exaustos, o chefe da família Fabiano, sua mulher Vitória, seus 2 filhos e o cachorro Baleia encontram uma casa e passam a noite, já que ela estava aparentemente abandonada.
De repente chega o dono da fazenda e ameaça expulsar a família da fazenda. Fabiano implora trabalho e acaba ficando na fazenda.
Um ano depois, Fabiano, já era empregado da fazenda e cuidava dos animais como vaqueiro, porém não recebia o salário suficiente por todo trabalho árduo que realizava.
Indo a cidade, Fabiano e a família vão à uma festa regional e Fabiano ao convite de um soldado vai jogar baralho com uns apostadores, apostando todo o seu salário e no momento que percebeu que estava perdendo no jogo, saiu e foi abordado pelo soldado ocorrendo uma discussão entre eles.
O soldado chama a polícia e eles o prendem, acusando-o injustamente e o agridem com um facão.
A mulher e as crianças sentindo sua falta pernoitaram na calçada e no dia seguinte viram o dono da fazenda e o padre indo em direção a prisão. O padre liberou Fabiano da prisão.
O tempo passou e a família foi ficando cada vez mais pobre, pois Fabiano gastava todo o dinheiro no jogo, e sua mulher revoltou-se.
A seca castigava cada vez mais os animais e por isto, Vitória quis fugir da fazenda.
A família organiza a mudança e Fabiano quer matar Baleia que está doente, mas acaba a ferindo com um tiro, porém ela foge. Nisso as crianças choram muito a perda do animal.
Por fim, Fabiano e a família saem em retirada e o sertão continuaria a mandar para a cidade homens fortes, brutos como Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos. O ciclo se reinicia.

A POESIA

Carlos Drummond de Andrade

Maior poeta de toda a literatura brasileira. Passa por pelo menos três fases (alguns autores defendem a idéia de uma quarta fase). Merece destaque especialíssimo e análise profunda.

1ª fase – fase gauche

Aquele que se sente às avessas, torto, que não consegue estabelecer comunicação com a realidade. Pessimismo, individualismo, isolamento, reflexão existencial, ironia, metalinguagem.
Obras: Alguma poesia; Brejo das almas.

Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
2ª fase – fase social

Interesse pelos problemas da vida social. Deixado de lado o gauchismo. O contexto histórico explica muito a respeito dessa nova fase drummondiana: ascensão do nazi-fascismo; Segunda Guerra Mundial; Ditadura Vargas.
Obras: Sentimento do mundo; José; Rosa do Povo

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


3ª fase – fase do signo do não

No contexto da Guerra Fria, o autor inclina-se para a poesia reflexiva, filosófica, metafísica. Temas como a morte e o tempo passam a ser freqüentes. Certa tendência ao Concretismo.
Obras: Claro Enigma; Fazendeiro do ar; Lição das coisas.

Confissão

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde , ao voltar da festa.
Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.
Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, murmúrios
de riso, entrega, amor e piedade?
Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro - vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.


Outros poemas importantes:




JOSÉ
 
             E agora, José?
          A festa acabou,
          a luz apagou,
          o povo sumiu,
          a noite esfriou,
          e agora, José?
          e agora, você?
          você que é sem nome,
          que zomba dos outros,
          você que faz versos,
          que ama, protesta?
          e agora, José?
          Está sem mulher,
          está sem discurso,
          está sem carinho,
          já não pode beber,
          já não pode fumar,
          cuspir já não pode,
          a noite esfriou,
          o dia não veio,
          o bonde não veio,
          o riso não veio
          não veio a utopia
          e tudo acabou
          e tudo fugiu
          e tudo mofou,
          e agora, José?
          E agora, José?
          Sua doce palavra,
          seu instante de febre,
          sua gula e jejum,
          sua biblioteca,
          sua lavra de ouro,
          seu terno de vidro,
          sua incoerência,
          seu ódio - e agora?
          Com a chave na mão
          quer abrir a porta,
          não existe porta;
          quer morrer no mar,
          mas o mar secou;
          quer ir para Minas,
          Minas não há mais.
          José, e agora?
          Se você gritasse,
          se você gemesse,
          se você tocasse
          a valsa vienense,
          se você dormisse,
          se você cansasse,
          se você morresse...
          Mas você não morre,
          você é duro, José!
          Sozinho no escuro
          qual bicho-do-mato,
          sem teogonia,
          sem parede nua
          para se encostar,
          sem cavalo preto
          que fuja a galope,
          você marcha, José!
          José, para onde?



No Meio do Caminho





No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
Nunca me esquecerei desse acontecimento
que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no
meio do caminho
no meio do caminho
tinha uma pedra



Quadrilha
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.



















Cecília Meirelles

Suas poesias apresentam a transitoriedade da vida e elementos que transmitem leveza, como a água, o vento, o mar, a música. Pela musicalidade dos versos e espiritualidade dos temas, é considerada uma poetisa neo-simbolista. Trata ainda da efemeridade (ser passageiro) e a fugacidade (ser muito rápido) das coisas.

É preciso não esquecer nada
 
É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.
 
É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
 
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.
 
O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.

Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Modernismo  no Brasil – 2ª fase - Geração de 1930

Confira mais sobre o Modernismo no Brasil em:

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Momento de descontração: o que você vê?


Obra de Fernando Sales (Professor Fernando Letras).

Modernismo no Brasil – 3ª geração - Geração de 1945

Modernismo no Brasil – 3ª geração - Geração de 1945

Análise de A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa


Geração de 1945

Contexto histórico

- Explosões atômicas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasáki
- Fim da Segunda Guerra Mundial
- Guerra Fria
- Queda de Getúlio Vargas - que voltaria ao poder, pelo voto popular, em 1950, onde permaneceu até suicidar-se, em 1954
- 1945: ano da morte de Mário de Andrade

Características gerais

- Um grupo busca o retorno à formalidade e os integrantes são chamados de “neoparnasianos”.
- Pesquisa em torno da própria linguagem literária (Guimarães Rosa, Clarice Lispector)
- Sondagem psicológica (Clarice Lispector e Lygia Fagundes Telles)
- Destaque para o espaço urbano (Dalton Trevisan, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector)

Clarice Lispector

- Busca psicológica profunda, tentando entender o ser humano
- Abandono quase completo do roteiro, para vasculhar a mente das personagens
- Epifania (revelação, de um momento para o outro, o personagem muda sua visão de mundo a partir de um acontecimento qualquer, como um encontrão, um beijo, um olhar, um susto)
- Introduziu o fluxo de consciência no Brasil (mostra o mundo interior das personagens, mas de forma desorganizada, como os pensamentos vêm, muitas vezes sem lógica, sem pontuação, com uma compreensão difícil)
- Apesar de sua obra como um todo não destacar muito o roteiro, os vestibulares enfocam mais o livro: “A hora da estrela”, seu único livro de temática claramente social.

A Hora da Estrela

Nordestina (Macabéa) que vai morar em São Paulo sonha com vida melhor, que não vem. É enganada pelo namorado e pela melhor amiga. No final, uma cartomante diz a ela que sua sorte irá mudar, que ela se dará muito bem. Macabéa, quando saiu da cartomante, estava "grávida de futuro". "Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentia tamanho desespero". Até para atravessar a rua ela se sentia diferente, e justamente ao atravessar a rua, Macabéa é atropelada por um luxuoso Mercedes Benz. Nesse momento, muitas pessoas se aglomeraram em torno de Macabéa. Esta é "a hora da estrela", finalmente ela é reconhecida. Com ela morre também o narrador, identificado com a escrita do romance que se acaba.

Fuvest/2006


Principais obras: Perto do coração selvagem, A maçã no escuro (1961), A paixão segundo G.H. (1964), Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres (1969) e A hora da estrela (1977).

Guimarães Rosa

- São os próprios sertanejos, muitas vezes, que narram as histórias
- A linguagem é regional, mas também há uso de expressões antigas e criação de novas palavras (neologismos)
- Falando do regional (de Minas Gerais), alcança o universal (o que serve para todos os humanos): “O sertão é o mundo”
- Grande presença das preocupações do sertanejo: bem e mal, Deus e o diabo, o amor, a violência, a morte, a traição, o mundo das crianças. “O Diabo na rua, no meio do redemoinho”
- Texto cheio de adjetivos, narrativas longas
- O universalismo
- Linguagem do sertanejo: estrupiz (estrupício); esquipado; agalopa; antão (então)
- Termos arcaicos e regionais
- Neologismos (invenção de palavras através das possibilidades da língua): desamistoso; gadaria; sonhice; tererém-tem-tém (onomatopéia, inclusive); malsorteante; transformoseava

Principais obras: Manuelzão e Miguilim; Sagarana; Primeiras Estórias; Grande Sertão: Veredas.

Grande Sertão: Veredas

Considerada a obra-prima da literatura brasileira do século XX. Riobaldo, um ex-jagunço, já aposentado, narra as histórias de sua vida, matando, guerreando, amando e sendo amado. Há duas tramas centrais: uma que corre a respeito da religiosidade. Riobaldo não sabe se fez ou não um pacto com o diabo e isso o atormenta sempre; outra que corre a respeito de um possível amor entre ele e seu melhor amigo, Diadorim. Essa segunda trama é resolvida quando o amigo morre e descobrem, ao tirarem sua roupa, que Diadorim era Diadorina.

A hora e a vez de Augusto Matraca

História que está contida no livro Sagarana, é muito reincidente em vestibulares. Nhô Augusto (Augusto Matraga) era poderoso, mas perde seu poder, seus capangas, deve muito e não respeita sua mulher. Esta foge com outro homem. Augusto resolve persegui-los, só que antes quer se vingar de seu maior inimigo, o Major Consilva. O Major e seus capangas espancam Augusto e o jogam em um despenhadeiro. Ele se salva por um milagre e é tratado por um casal de negros. Resolve mudar de vida. Agora era sério, digno. Só que o fogo das brigas continuava dentro dele.
Certo dia, chega ao reduto de Matraga o bando do temido Joãozinho Bem-Bem. O povo não se mexia de tão apavorado, mas Nhô Augusto acolhe-os e os trata com hospitalidade. Os dois se dão bem. Recuperado fisicamente, Augusto Matraga resolve sair de seu reduto, caminhar a fim de encontrar sua hora. Caminha sem destino, quando chega a lugarejo em que , por coincidência estavam Joãozinho Bem-Bem e seu bando prontos para executar uma família, para se vingarem da morte de um capanga. O velho chefe da família, pede, implorando para que só ele morra. Mas Bem-Bem se recusa a aceitar o pedido do velho, alegando ser regra... Augusto interfere, opondo-se à vingança. Há um duelo em que Joãozinho Bem-Bem e Augusto Matraga saem mortos. Morrem como irmãos. Aqui Augusto Matraca une seu ser espiritual, com seu ser guerreiro, e se salva.

30. Associe o conto "A Hora e a Vez de Augusto Matraga" com as seguintes referências do livro "Sagarana" de Guimarães Rosa:
(A)
São três os lugares onde ocorrem as três fases da vida do personagem central, a saber: Murici (onde vive como bandoleiro); Tombador (onde se arrepende da vida de perversidades); Rala Coco (onde vem a morrer em duelo);
(B)
Tragédia de um homem perverso que judia muito do pobre carreiro Tiãozinho;
(C)
Através da cegueira do narrador (causada por um feitiço), temos um elogio ao conhecimento sensorial do universo;

(D)
Aventuras de um mulato irresponsável que vende a própria mulher e depois tapeia o comprador da mesma;

(E)
Narrativa anedótica do truque da personagem principal contra um valentão; fato que ocorre na Laginha, lugar de gente muito brava.

FDSM/2005
a

O burrinho pedrês
A trama desse conto, como nas demais narrativas de Guimarães Rosa, é relativamente simples. O velho burrinho Sete-de-Ouros, por falta de outras montarias, é engajado para levar uma boiada vendida pelo dono da fazenda, o major Saulo. Durante a viagem, ficamos sabendo que o vaqueiro Silvino quer matar o vaqueiro Badu, por causa de uma moça. Francolim, que é uma espécie de ajudante-de-ordens do major, denuncia a briga ao patrão, mas nada é feito para evitá-la.
Silvino chega a provocar um acidente, com o intuito de fazer os bois atropelarem Badu. Quando vê que não consegue matá-lo desta forma, planeja fazê-lo pessoalmente, na viagem de volta, depois de atravessarem o ribeirão cheio pelas chuvas. Nesse retorno, Badu está bêbado. Por isso, os demais vaqueiros deixam-no com o burrinho Sete-de-Ouros. Ao atravessarem o ribeirão, morrem na enchente oito vaqueiros, inclusive Silvino. Badu é salvo heroicamente pelo Sete-de-Ouros, que consegue chegar à outra margem e ao descanso merecido. Traz, vitorioso, o bêbado apaixonado na sela e Francolim agarrado no rabo...
Conversa de bois

Os personagens desta história, além da irara, são onze: o carreiro Agenor Soronho, o menino-guia Tiãozinho, o defunto seu pai e os oito bois do carro.
O carreiro é o bandido: amante da mãe do guia, maltrata o menino, órfão de pai. Os maltratos de Agenor ao menino vão num crescendo, até que os bois intervêm: começam a conversar entre si, contam histórias, comentam a vida e, enfim, percebem a maldade de Agenor e o sofrimento do menino. No final, os bois, humanizados, unem-se psiquicamente ao menino. Ele, então, consegue superar sua fraqueza com a força dos bois. Aproveitando que Agenor havia dormido perto da roda do carro, os bois e o menino dão um arranco forte e matam o carreiro, cuja cabeça é quase cortada.

São Marcos
Há duas histórias neste conto. Uma delas, bem menor, é inserida no meio da outra, que conta a desavença entre o narrador e um feiticeiro. Por ter ridicularizado o negro Mangalô. José, o protagonista, torna-se alvo de uma bruxaria. Mangalô constrói um boneco-miniatura do inimigo, e coloca uma venda em seus olhos, o que faz José ficar cego, perdendo-se no meio do mato. Para conseguir achar o caminho de volta, mesmo sem enxergar, ele reza a oração de São Marcos, sacrílega e perigosa.
-Em nome de São Marcos e de São Manços, e do Anjo Mau, seu e meu companheiro...
-Ui! Aurísio Manquitola pulou para a beira da estrada, bem para longe de mim, se persignando, e gritou:
-Pára, creio-em-Deus-padre" Isso é reza brava...
Com o poder dado pela oração, mesmo cego José encontra a casa de Mangalô, ataca o negro e o obriga a desfazer a feitiçaria.
A outra história, dentro desta, constitui um pequeno episódio no qual José fala de um bambual onde ele e um desconhecido travam um duelo poético; o desconhecido fazendo quadrinhas populares, e ele colocando poemas como nomes de reis babilônicos.


João Cabral de Melo Neto [mostrar início e fim do livro]

- João Cabral de Melo Neto é o principal poeta surgido no período da Geração de 45, e figura entre os maiores poetas da língua portuguesa.
- Profunda reflexão sobre o fazer poético
- Poesia como esforço em busca da síntese (dizer o máximo com o mínimo de palavras)
- Poesia é lenta e sofrida pesquisa de expressão
- Textos duros, fortes

Resumo de Morte e vida Severina

O poema conta a trajetória de um sertanejo que abandona o agreste, rumo ao litoral, encontrando nesta migração apenas pessoas que estão morrendo pela seca, de fome, etc. Severino continua seu roteiro até chegar ao Recife. Lá percebe que a miséria continua e resolve se matar. José, um mestre carpina, conversando com Severino, desperta-lhe alguma esperança.  Chega-lhe a notícia do nascimento do filho de José. Severino vai visitá-lo e descobre que aquela vida, mesmo franzina, é a prova da resistência de todos os "severinos" do Nordeste.
Obras principais:
Pedra do sono (1942); O engenheiro (1945); Psicologia da composição (1947); O cão sem plumas (1950); Morte e vida severina (1956); A educação pela pedra (1966); Museu de tudo (1975).

* A poesia de Drummond está, nesse momento, terminando sua segunda fase, e entrando na fase do não.

Ao dizer: “(...) promessa é questão de grande dívida de honra”, Olímpico junta, em uma só afirmação, a obrigação religiosa e o dever de honra. A personagem de Sagarana que, em suas ações finais, opera uma junção semelhante é
a)    Major Saulo, de “O burrinho pedrês”
b)    Lalino, de “Traços biográficos de Lalina Saláthiel ou A volta do marido pródigo”.
c)    Primo Ribeiro, de “Sarapalha”.
d)    João Mangolô, de “São Marcos”.
e)    Augusto Matraga, de “A hora e a vez de Augusto Matraga”.


Modernismo no Brasil – 3ª geração - Geração de 1945 



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