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sábado, 28 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 11- Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

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Greval não se resignava ao neocódigo. Aquilo não lhe fazia o bem que se esperava que fizesse a um etnodominador. Ora, atlântidos-atormentados, nosso herói está cordiferido com tais leis, está mortificado com a aristojustiçaria, e oferece ao manicrata João Pedro II – para nossa grande honra – uma contraproposta nos exatos termos opostos aos que foram apresentados.
Pretendia o greválico homem dar aos seres de subvida as mesmas condições de macroexistência recebidas pela elite. Sim, a macroexistência, a equissaúde, a ambrósica-alimentação, o hercúleo-esporte, o bacante-lazer, a alexândrica-profissionalização, o total extermínio da gluteolatria, a dignidade racional, a platônica-educação, o etnorrespeito, a sartreana-liberdade, a convivência-familiar-confuncionista e o convívio-social-volteriano! É bem verdade que muitos dos valores propostos por ele nem mesmo a elite cabelense possuía, mas a seu ver aqueles eram direitos básicos que até seu pior inimigo deveria merecer – não como privilégio, mas como pré-requisito para que pudesse vir a desenvolver suas potencialidades humanas.
Obviamente, os aristocabeladores receberam a contraproposta como uma grande paródia dante-humorística para humilhar ainda mais a classe social rastejante. Contudo, nem todos assim a viram, do que resultou que alguns mau-olharam para Greval e para seu cargo de etnodominador, o que lhes contarei com mais detalhes na parte seguinte.

Parte VI - Outra estirpe das mais menos-prezadas; Greval sob risco de subvida

Este é um costume muito específico do reino. E, por isso mesmo, como boa parte do que de lá emerge, é-nos incompreensível. Vislumbrem, Úmero, Salles, Dudu, Caipira, Lucca, João Martins, Karen, Bea, vocês que observam essa realidade com olhos-de-criança-ouvindo-a-avó-falar-de-outro-mundo... No Reino Sub-Imundo dos Alisamentos Capilares, existia o que em gíria se chamava “ajoelhar-se-disposto-ao-chefe”, ou “tombo-dado-aos-colegas”, ou “oca-pessoa-que-não-pode-por-si-mesma”. No entanto, em linguagem oficial, emprego tão marcante – e descobrimos que se trata sim de um emprego – era o “cargo de secretário sem autoconfiança”. E o secretário sem autoconfiança do presidente João Pedro II era Energúncio-Tapete-Às-Mãos.
Energúncio não contrariava o chefe pelo que fosse e jamais lhe lançava um “talvez” ou um “mas”. Era tecnicamente impossível que oferecesse algumas expressões-tabu, como: “Em minha opinião”, “Eu acho”, “Eu penso” ou principalmente “Eu sei”. Por isso mesmo, ele era tido em grande conta por seu chefe, como um ulíssico-funcionário, com ilustradas ideias para solucionar problemas os mais difíceis. Sua técnica era simples: bastava-lhe papagaicamente repetir o que seu chefe houvesse dito, ou simplesmente apoiá-lo.
Muito boa sua comparação, Dudu! O cérebro dele, de fato, poderia ser comparado ao de Lomer Cinpson, essa rara e maior aberração da Sociedade Atlântida. Se alguém não se lembra, era o protagonista de um seriado de tevê extinto há muito em que as pessoas são amarelas por tomarem uma infinidade de Coca-Esfola, tem barriga um tanto quanto saliente por tomarem muita cerveja Prama e acreditam nos noturnos telessanguinários-jornais atlântidos; sim, nos soturnos telemartirizantes-jornais atlântidoentes!, essa nossa óbvia comédia cotidiana.
Tapete-Na-Mão apoiava quaisquer decisões do presidente, mesmo que fossem decretos que mandassem soldados rezarem a “Oração da Covardia”, mesmo que fossem leis que dissessem que balas perdidas seriam autorizadas somente em capitais do turismo, ou mesmo que lhe ordenasse enrolar papéis higiênicos recicláveis destinados inevitavelmente aos subviventes. Sabia, Energúncio-Tapete-Na-Mão, que o mais importante na vida não era a verdade, não era chegar ao fundo da questão, chegar às respostas das questões veropreocupantes. O mais importante era o que o presidente dissesse ou mandasse, ainda que manicrata, ainda que despreparado, ainda que inconsequente e prejudicial à maioria da bobulação – os já tão famosos seres de subvida.

Página 37

Ah, Úmero Card’Osso, como era oftalmocarente o presidente! Como era elitólatra! Como necessitava de um urgente-enxerto-cerebral! E, no entanto, mais absurdo que um presidente com teor cerebral comprometido somente poderia ser um seu canino-secretário-fiel.
Tal ser-excretário, meu amigo atlantidoísta, era colega de trabalho de Greval, esse nosso neo-herói, esse melhor funcionário que o Reino Sub-Imundo jamais teve, esse defensor-dos-desafortunados. E foi, por certo, determinante em seu destino.
Ah, Greval, como nos orgulhamos por você ter reinventado o Sistema Público de Saúde São Presidente João Pedro II; por ter esclarecido que a educação é a base de toda a sociedade – ainda que os seres de macrovida tenham entendido isso como uma piada-de-humor-ultranegro; por ter abolido o paternalismo e o protecionismo – esses disfarces da opressão mal-intencionada – e; principalmente, por ter dado oportunidade aos bons-de-serviço-e-fracos-de-conhecidos-influentes. Mas, Greval, questiono-o, apesar de que não me ouve, numa simples pergunta-retórica: que importa tudo isso? Que importa tudo isso quando você, camoniano ser, não fez sua reverência mensal ao presidente?!
Não poderia se “esquecer” de que é sua obrigação, no dia sete de cada mês, passar diante d’Ele e reverenciá-lo tirando o chapéu e o que mais lhe for pedido. Ora, Greval, aquela foi uma clara demonstração de seu desrespeito e de sua nítida vontade de abdicar de seu salário, que só viria depois da reverência.
É verdade, meninas atlantidocêntricas, não me olhem horrorizadas: tal oferta, no Reino Sub-Imundo, é tão importante para eles quanto é para nós a Oferenda do Primeiro Geladíssimo Copo de Cerveja. Deixem-me, portanto, prosseguir com os abismais fatos.
A consequência de tão estapafúrdias confusões foi que Energúncio, cumprindo metodicamente seu papel de tombador-de-colegas-honestos, denunciou Greval à Suprema Corte da Ignorância. Nosso herói, o que tudo fizera, o sempre-justo-reto-e-correto, o ajudante-mor do presidente, estava agora sobre grave risco de tornar-se um ser de microvida, e desempregado.
(Dizem os Abrutalhados Trabalhadores das Indústrias de Fabrícia que a pior mulher é aquela que, estando acompanhada, dá atenção a outro homem e que o pior homem é aquele que, além de não agir, não deixa que os outros ajam. Se é verdadeiro que Energúncio não é mulher e que não dá atenção a ninguém que não seja João Pedro II, é mais verdadeiro ainda que ele é daqueles que estorvam o caminho dos vencedores, que atrasam a vitória dos grandes, que tendem a acreditar que só porque eles próprios são pequenos, fracos e incapazes, todas as outras pessoas no mundo também o são. Não dão, não vendem, não emprestam. Não passam, não saem do caminho e colocam armadilhas para quem tenta ir adiante).
Todos os capilantras agora riem de Greval como se ri de um homem que perde uma ninfa para um idoso desprovido-dos-fios-capilares e super-provido-de-auros-estelares. Riem dele como se ri de um candidato que perde um grande emprego para alguém menos competente e mais bem familiarizado com o dono. Riem dele, enfim, como de um supremo-ser que era motivo de inveja e já não é mais! Dessa forma, antecipavam um triste fim do qual nem mesmo tinham certeza. E, por tal altura, já lhe apontavam na rua, dizendo-lhe: “Lá vai um senhor Jeca!”.

Página 38

Para depurar devidamente sua fossa, Greval acomodou-se à sua poltrona por umas horas, o suficiente para ver um plantão psicoapelador, em um dos jornais mais mentiráticos do reino: “A doentia Manisofa ataca novamente. Depois de parar o trânsito de Distúrbico por um dia, sem explodir ônibus algum, a sociopata agora ameaça explodir o templo mais sagrado de cada uma das três principais religiões existentes em nossa sociedade: um idademedista, um jucaísta e um altissonante. Estão todos situados na Faixa de Paza, centro de nossas principais guerras santas-do-pau-oco.
“É um momento tenso e inigualável na história da humanidade. As três religiões envolvidas disputam há milênios tais territórios. Tudo indicava que caminhavam, enfim, pacificamente para uma trégua... Mas foi justamente nesse momento de distração que Manisofa agiu.
“Vejamos um vídeo com as palavras do respeitadíssimo presidente manicrata, que havia sido por ela sequestrado e forçado a ler recitadamente um texto. Nota: logo após a gravação, ele foi abandonado em um dos nossos famosos Clubes-de-Luta-Clandestinos:
“- Cada igreja está repleta de explosivos. Se alguém sair, ela explode. Se alguém entrar, ela implode. Se for tentado qualquer contato com o exterior, desmorona. Cada uma delas tem o poder de destruir as outras duas. Cada uma delas tem um dispositivo no altar que pode acabar definitivamente com as outras. É a chance que todas têm de serem a única, de serem a soberana, de levarem adiante sua crença. Em quinze minutos, só existirá um desses templos, pois se não destruírem somente os outros dois, eu mesmo os destruirei todos. Em quinze minutos, esfacelar-se-ão, no mínimo, dois dos maiores templos da humanidade. Basta agora que vocês escolham. Por um sutil cuidado, há câmeras nas três igrejas, para que todos possamos acompanhar as ações dos detentores do poder. Eu amo o medo!”.
Greval, ao invés de dormir, como havia feito na vez anterior em que ouviu falar de Manisofa, passou a prestar atenção nos fatos. O jornal sensacionaleiro não poderia perder um minuto de audiência e subcultura. Mostrou, portanto, como a igreja idademedista ergueu imediatamente um amplidebate a respeito da incredibilidade de Manisofa, que já havia ameaçado explodir dez ônibus e não o fez. Disso, concluíram que se não matassem os outros, não seriam mortos, e deixaram estar, tranquilos e conscientes da melhor escolha. A igreja jucaísta pensou que deveria seguir o intraprincípio de sua religião, que era: “não fazer ao outro o que não desejaria que fosse feito a você”, e resolveu sacrificar milênios arquitetônicos – tornando-se assim artecidas, mas salvando alguns milhares de micro ou subvidas. Por fim, na igreja altissonante, depois de rápidas análises precipitadas e disparatadas, o líder chegou à conclusão de que, se não explodissem-implodissem-ou-demolissem as outras, seriam logo impiedosamente assassinados pelos infiéis-pecadores – e era até assustador que ainda não tivessem sido: “certamente um milagre!”. Empolgando-se em seu discurso e consigo mesmo, o líder disse ainda: “Esta é uma chance única, mulheres e homens de grande voz: podemos mudar o rumo da história!” E, sem titubear, ergueu uma nova canção, que ensinava os altos louvores, as altas doações e o total desapago, além é claro de justificar belas explosões e sacrifícios espantosamente em nome da fé. Foi então que apertou o botão, lançando pelos ares dois templos e milhares de fiéis. Foi desta forma que sua igreja criou o monopólio-da-fé, que não abordaremos mais adiante, meus amigos apressados, por respeito às vítimas da macroignorância.

Página 39

A tempo, importa-nos saber que Greval passou a refletir mais sobre a mulher dos cabelos à semelhança de fiapos de espiga-de-milho, autodenominada Manisofa, a criadora de tantos problemas. Não foi preciso muito para que concluísse ser preciso procurá-la, saber seus motivos, afagar-lhe a alma; ora, ninguém lutava por nada. Poderia ser dinheiro o que ela queria, poderia ser qualquer outra coisa: a questão central era realmente descobrir qual recompensa buscava Manisofa. Foi então que nosso herói lembrou-se de sua posição-de-risco no governo, de sua posição-de-risco em casa, e decidiu agir rapidamente. Mas como?

 
Foto da mão de Energúncio

Página 40


CAPÍTULO IV – NÚCLEO SOCIOILÓGICO DO REINO SUB-IMUNDO

Ora, João Martins, esse seu pragmatismo-clássico, essa sua memória-de-balconista-insatisfeito-com-seu-salário-mínimo! não me deixa mesmo esquecer de nosso filósofo-de-bar, o já aguardado e resguardado Souropeaux – o diabo-da-solidão, o filocarente, o vagante a sós. Pois bem, para que você saiba um pouco mais sobre tão centrípeto personagem; para que conheça bem sua incógnita mentalidade; para que enfim saiba o quanto Pratão – um alpinista lisense que crê ser melhor que os outros e atingir as alturas – fica pequeno diante de tal homem; por isso tudo, agora saberemos a opinião dele sobre alguns subfenômenos reinais.

Parte I – Sistema de governantes doidos do Reino Sub-Imundo

“Não se pode esperar algo diferente dessa sociedade, de métodos desoladores: os presidentes são, em sequência e sempre, egolouvadores, alterdestrutivos, sociopatas e, fundamentalmente, manicratas. Sim, o ‘Império da Loucura’, da demência, da insanidade paira sobre nós. Os governantes tudo podem, tudo sabem. São, em verdade, os Neros pré-modernos: com a sutil diferença de que em vez de atearem fogo ao reino, ateam o caos, o ilogismo, a ignorância e a discórdia. Por serem descompensados, os presidentes consideram em demasia o autoproveito, a unilateral visão de mundo e, incoerentemente-com-sua-própria-incoerência, o nepotismo.
A principal consequência de sua doença-mental – pré-requisito fundamental para poder ser eleito – é seu método político. Dele surgem suas decisões arbitrárias, criminosamente mal-intencionadas e genocidas. Os governantes constroem de tempos em tempos longas e caras estradas que ligam o Inabitável ao Inóspito, sem baldeações; iniciam projetos bárbaros de energia-nula, infuncionáveis, mas sempre pagos com antecedência; lavam, enfim, o dinheiro público no copo sujo de seu parentesco ou cunhadesco industrial e comercial.
Ora, já que é assim, ninguém pode compreendê-los: são doidos-nunca-varridos. E justamente por isso é mais fácil adorá-los, cultivá-los, chamá-los de ‘queridos’ e dar-lhes muitas reeleições desmerecidas, esquecendo paulatinamente suas injustiças acumuladas a cada pleitocídio”.
Tudo isso, meninas super-atlântidas, era o próprio Souropeaux que observava e analisava tomando um conhaque dos mais empoeirados daquela agropaisagem espontânea: o Bar Sujo. Gostava mesmo dali, pois enquanto Des Lize ia-lhe trazendo sorridentemente tudo quanto pedia, ele podia anotar em sua caderneta, já desencapada e amarelada, diversas acrogogias – ciência por ele mesmo inventada, tendo o sentido de “conduzir os homens às alturas” – que jamais seriam publicadas nem lidas, devido à falta de público que não fosse só ocupador-de-carteira-escolar, leitor-de-orelha-de-livro ou assistidor-de-tevê; por falta do público por nós denominado como: “leitor-de-expressões-máximas-de-uma-humanidade-inteira”!
É certo, Karen Wine, que ele estava coberto de razão como cobrimos nossos amores de emoção. O que ele não sabia é que ali, no Reino Do Instante, a Verdade era um acessório aberratório, coisa de pai-saudosista que já não entende nada-do-que-a-gente-gosta, artigo dos mais inconvenientes e criadores de antipatias ou, enfim: ele não sabia simplesmente que a Verdade não era requinte da moda. “E a moda é tudo”, já dizia Ovosníguio, o senhorito das chapas alisadoras.
Se forçarmos um pouco mais nossa vasta memória, minha amiga bacantora, lembrar-nos-emos de que as coisas de que Souropeaux não gosta jamais foram vistas em período algum, nem nos mais remotos, em nossa Sociedade Atlântida: protótipo dos convívios! Sendo assim, é importante fazer dele um foco de análise; ele, que se torna para nós agora um verme-saudável em meio à lavagem-superficial; ou ainda, uma laranja medonha, podre até no sumo do supra-sumo, mas que não contagia as demais.

Página 41

Apartes à parte, continuemos, amigos, com a narrativa.

O atual presidente, João Pedro II, fazia parte de uma grande linhagem de doidos, patetas, mendigos e fanáticos. Era, portanto, um exemplar perfeito para governar o Reino Sub-Imundo: um “despreparado”.
Porque no Reino Sub-Imundo, surpreso Úmero, a loucura foi a subforma encontrada para que nunca se errasse na escolha dos governantes. O essencial era que os presidentes fossem efetivamente incompetentes, não pudessem (ou quisessem) fazer coisa alguma para mudar, para melhorar a vida da bobulação de microvida. Ora, a sociedade cabelense era, por desexcelência, uma não-realizadora de sonhos, apesar de, mantê-los, na medida certa, existindo. “Sem ilusões o império não sobreviveria”, falava o manicrata. Matando a trilha de realizações dos sonhos, assassina-se a meta: a transformação social e individual.
Caipira, parceiro, aquela sociedade estava, por certo, longe de nosso adorado e pretenso viver-esclarecidamente. Pois veja...


CONTINUA...

Na próxima semana, não perca o consumidoidismo e as Lojas Multi-Titica!

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terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Conto: O Peru de Natal, de Mário de Andrade

O Peru de Natal
Mário de Andrade


O nosso primeiro Natal de família, depois da morte de meu pai acontecida cinco meses antes, foi de conseqüências decisivas para a felicidade familiar. Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato da felicidade: gente honesta, sem crimes, lar sem brigas internas nem graves dificuldades econômicas. Mas, devido principalmente à natureza cinzenta de meu pai, ser desprovido de qualquer lirismo, de uma exemplaridade incapaz, acolchoado no medíocre, sempre nos faltara aquele aproveitamento da vida, aquele gosto pelas felicidades materiais, um vinho bom, uma estação de águas, aquisição de geladeira, coisas assim. Meu pai fora de um bom errado, quase dramático, o puro-sangue dos desmancha-prazeres.

Morreu meu pai, sentimos muito, etc. Quando chegamos nas proximidades do Natal, eu já estava que não podia mais pra afastar aquela memória obstruente do morto, que parecia ter sistematizado pra sempre a obrigação de uma lembrança dolorosa em cada almoço, em cada gesto mínimo da família. Uma vez que eu sugerira à mamãe a idéia dela ir ver uma fita no cinema, o que resultou foram lágrimas. Onde se viu ir ao cinema, de luto pesado! A dor já estava sendo cultivada pelas aparências, e eu, que sempre gostara apenas regularmente de meu pai, mais por instinto de filho que por espontaneidade de amor, me via a ponto de aborrecer o bom do morto.

Foi decerto por isto que me nasceu, esta sim, espontaneamente, a idéia de fazer uma das minhas chamadas "loucuras". Essa fora aliás, e desde muito cedo, a minha esplêndida conquista contra o ambiente familiar. Desde cedinho, desde os tempos de ginásio, em que arranjava regularmente uma reprovação todos os anos; desde o beijo às escondidas, numa prima, aos dez anos, descoberto por Tia Velha, uma detestável de tia; e principalmente desde as lições que dei ou recebi, não sei, de uma criada de parentes: eu consegui no reformatório do lar e na vasta parentagem, a fama conciliatória de "louco". "É doido, coitado!" falavam. Meus pais falavam com certa tristeza condescendente, o resto da parentagem buscando exemplo para os filhos e provavelmente com aquele prazer dos que se convencem de alguma superioridade. Não tinham doidos entre os filhos. Pois foi o que me salvou, essa fama. Fiz tudo o que a vida me apresentou e o meu ser exigia para se realizar com integridade. E me deixaram fazer tudo, porque eu era doido, coitado. Resultou disso uma existência sem complexos, de que não posso me queixar um nada.

Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":

— Bom, no Natal, quero comer peru.

Houve um desses espantos que ninguém não imagina. Logo minha tia solteirona e santa, que morava conosco, advertiu que não podíamos convidar ninguém por causa do luto.

— Mas quem falou de convidar ninguém! essa mania... Quando é que a gente já comeu peru em nossa vida! Peru aqui em casa é prato de festa, vem toda essa parentada do diabo...

— Meu filho, não fale assim...

— Pois falo, pronto!
E descarreguei minha gelada indiferença pela nossa parentagem infinita, diz-que vinda de bandeirantes, que bem me importa! Era mesmo o momento pra desenvolver minha teoria de doido, coitado, não perdi a ocasião. Me deu de sopetão uma ternura imensa por mamãe e titia, minhas duas mães, três com minha irmã, as três mães que sempre me divinizaram a vida. Era sempre aquilo: vinha aniversário de alguém e só então faziam peru naquela casa. Peru era prato de festa: uma imundície de parentes já preparados pela tradição, invadiam a casa por causa do peru, das empadinhas e dos doces. Minhas três mães, três dias antes já não sabiam da vida senão trabalhar, trabalhar no preparo de doces e frios finíssimos de bem feitos, a parentagem devorava tudo e ainda levava embrulhinhos pros que não tinham podido vir. As minhas três mães mal podiam de exaustas. Do peru, só no enterro dos ossos, no dia seguinte, é que mamãe com titia ainda provavam num naco de perna, vago, escuro, perdido no arroz alvo. E isso mesmo era mamãe quem servia, catava tudo pro velho e pros filhos. Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.

Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a... culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
— É louco mesmo!...

Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. Fora engraçado:assim que me lembrara de que finalmente ia fazer mamãe comer peru, não fizera outra coisa aqueles dias que pensar nela, sentir ternura por ela, amar minha velhinha adorada. E meus manos também, estavam no mesmo ritmo violento de amor, todos dominados pela felicidade nova que o peru vinha imprimindo na família. De modo que, ainda disfarçando as coisas, deixei muito sossegado que mamãe cortasse todo o peito do peru. Um momento aliás, ela parou, feito fatias um dos lados do peito da ave, não resistindo àquelas leis de economia que sempre a tinham entorpecido numa quase pobreza sem razão.

— Não senhora, corte inteiro! Só eu como tudo isso!

Era mentira. O amor familiar estava por tal forma incandescente em mim, que até era capaz de comer pouco, só-pra que os outros quatro comessem demais. E o diapasão dos outros era o mesmo. Aquele peru comido a sós, redescobria em cada um o que a quotidianidade abafara por completo, amor, paixão de mãe, paixão de filhos. Deus me perdoe mas estou pensando em Jesus... Naquela casa de burgueses bem modestos, estava se realizando um milagre digno do Natal de um Deus. O peito do peru ficou inteiramente reduzido a fatias amplas.

— Eu que sirvo!

"É louco, mesmo" pois por que havia de servir, se sempre mamãe servira naquela casa! Entre risos, os grandes pratos cheios foram passados pra mim e principiei uma distribuição heróica, enquanto mandava meu mano servir a cerveja. Tomei conta logo de um pedaço admirável da "casca", cheio de gordura e pus no prato. E depois vastas fatias brancas. A voz severizada de mamãe cortou o espaço angustiado com que todos aspiravam pela sua parte no peru:

— Se lembre de seus manos, Juca!

Quando que ela havia de imaginar, a pobre! que aquele era o prato dela, da Mãe, da minha amiga maltratada, que sabia da Rose, que sabia meus crimes, a que eu só lembrava de comunicar o que fazia sofrer! O prato ficou sublime.

— Mamãe, este é o da senhora! Não! não passe não!

Foi quando ela não pode mais com tanta comoção e principiou chorando. Minha tia também, logo percebendo que o novo prato sublime seria o dela, entrou no refrão das lágrimas. E minha irmã, que jamais viu lágrima sem abrir a torneirinha também, se esparramou no choro. Então principiei dizendo muitos desaforos pra não chorar também, tinha dezenove anos... Diabo de família besta que via peru e chorava! coisas assim. Todos se esforçavam por sorrir, mas agora é que a alegria se tornara impossível. É que o pranto evocara por associação a imagem indesejável de meu pai morto. Meu pai, com sua figura cinzenta, vinha pra sempre estragar nosso Natal, fiquei danado.

Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. A carne mansa, de um tecido muito tênue boiava fagueira entre os sabores das farofas e do presunto, de vez em quando ferida, inquietada e redesejada, pela intervenção mais violenta da ameixa preta e o estorvo petulante dos pedacinhos de noz. Mas papai sentado ali, gigantesco, incompleto, uma censura, uma chaga, uma incapacidade. E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido.

Principiou uma luta baixa entre o peru e o vulto de papai. Imaginei que gabar o peru era fortalecê-lo na luta, e, está claro, eu tomara decididamente o partido do peru. Mas os defuntos têm meios visguentos, muito hipócritas de vencer: nem bem gabei o peru que a imagem de papai cresceu vitoriosa, insuportavelmente obstruidora.

— Só falta seu pai...

Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. Cheguei a odiar papai. E nem sei que inspiração genial, de repente me tornou hipócrita e político. Naquele instante que hoje me parece decisivo da nossa família, tomei aparentemente o partido de meu pai. Fingi, triste:

— É mesmo... Mas papai, que queria tanto bem a gente, que morreu de tanto trabalhar pra nós, papai lá no céu há de estar contente... (hesitei, mas resolvi não mencionar mais o peru) contente de ver nós todos reunidos em família.

E todos principiaram muito calmos, falando de papai. A imagem dele foi diminuindo, diminuindo e virou uma estrelinha brilhante do céu. Agora todos comiam o peru com sensualidade, porque papai fora muito bom, sempre se sacrificara tanto por nós, fora um santo que "vocês, meus filhos, nunca poderão pagar o que devem a seu pai", um santo. Papai virara santo, uma contemplação agradável, uma inestorvável estrelinha do céu. Não prejudicava mais ninguém, puro objeto de contemplação suave. O único morto ali era o peru, dominador, completamente vitorioso.

Minha mãe, minha tia, nós, todos alagados de felicidade. Ia escrever «felicidade gustativa», mas não era só isso não. Era uma felicidade maiúscula, um amor de todos, um esquecimento de outros parentescos distraidores do grande amor familiar. E foi, sei que foi aquele primeiro peru comido no recesso da família, o início de um amor novo, reacomodado, mais completo, mais rico e inventivo, mais complacente e cuidadoso de si. Nasceu de então uma felicidade familiar pra nós que, não sou exclusivista, alguns a terão assim grande, porém mais intensa que a nossa me é impossível conceber.

Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade!

A tamanha falta de egoísmo me transportara o nosso infinito amor... Depois vieram umas uvas leves e uns doces, que lá na minha terra levam o nome de "bem-casados". Mas nem mesmo este nome perigoso se associou à lembrança de meu pai, que o peru já convertera em dignidade, em coisa certa, em culto puro de contemplação.

Levantamos. Eram quase duas horas, todos alegres, bambeados por duas garrafas de cerveja. Todos iam deitar, dormir ou mexer na cama, pouco importa, porque é bom uma insônia feliz. O diabo é que a Rose, católica antes de ser Rose, prometera me esperar com uma champanha. Pra poder sair, menti, falei que ia a uma festa de amigo, beijei mamãe e pisquei pra ela, modo de contar onde é que ia e fazê-la sofrer seu bocado. As outras duas mulheres beijei sem piscar. E agora, Rose!...

Mário de Andrade 
(1893-1945), nasceu em São Paulo, mostrando desde cedo inclinação pela música e literatura. Seu interesse pelas artes levou-o a realizar em São Paulo, de parceria com Oswald de Andrade, a Semana de Arte Moderna, que rasgou novas perspectivas para a cultura brasileira. Sua obra, essencialmente brasileira, reflete um nacionalismo humanista, que nada tem de místico e abstrato. "Macunaíma", baseada em temas folclóricos é, geralmente, considerada a sua obra-prima.

O texto acima foi extraído do livro "
Nós e o Natal", Artes Gráficas Gomes de Souza, Rio de Janeiro, 1964, pág. 23..

Conheça a vida e a obra de Mário de Andrade visitando "Biografias".

sábado, 21 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 10 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo

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A reação dos Bocas Sujas foi imediata. Cuspiram no demo, abraçando definitivamente os dois novos deuses que dominavam o Reino Sub-Imundo: a deusa Mídia e o deus Sucesso. Ah! Tristeza de um atlântido! Fizeram chous por todo o reino e foram amados por todo ser humano. Invadiram a imprensa escrita no papel, a televisiva e a extrenetal. Eram rostos conhecedíssimos em todo lugar, com uma pseudointimidade absurda com as gentes. Enfim, estavam no auge do mundo e no fundo dele, ao mesmo tempo.
Isso porque o Sucesso e a Mídia, hoje, são hoje o fim da arte, Úmero. Ame seu anonimato como possibilidade única de continuidade de seu projeto artístico mais ou menos sério.
No entanto e salvadoramente, é preciso dizer que, em um momento de tentação de Baco, Inho contratou mui sorrateira e plurissacanamente um avião para matá-los em um pseudoacidente. Morreram todos juntos. Morreram, enfim, como devem fazer os amigos, os sempreamigos. Como morreremos nós, os atlântidos! Ademais... Tivemos o benefício de ser dos poucos que puderam presenciar a verdadeira beleza desses que se tornaram, infelizmente, semideuses lisocabeleiros. Nunca é demais reafirmar: aquele era um povo necrocultuador.

Parte III – a composição do belo e sua síntese; uma comemoração catastrófica e; o surgimento de uma nova heroína: Manisofa

Depois de acordar, na tarde da Quarta-Encinzas, Greval, herói de nossa gente, contou a Lúcsia que havia conhecido na noite anterior o famoso filósofo-de-boteco Souropeaux – a lenda-presente-e-viva, o oposto máximo das lendas-normais-e-ausentes tão veneradas naquele toxicorreino. A moça muito se interessou pela Triste Figura, pois tal era motivo de chacota e de riso para todos, até para os pedintes-nas-horas-vagas, excepcionalmente conhecidos como professores-do-estado.
Segundo a descrição dada pelo etnodominador, o arvorado Souropeaux era o ser de menos estatos no Reino Sub-Imundo, visto que nunca fazia chapinha – seus cabelos assemelhavam-se a alguma vassoura, a um leão-recém-rebelado, a um ouriço-loiro. Somado a isso, era mais pobre que os operários-do-sindicato-de-reaproveitamento-de-lixo-orgânico e que os integrantes-da-liga-de-recuperação-do-lixo-hospitalar – defeito deveras grave, o de ser pobre, no reino. Sua aparência, de modo geral, era a de um ser que acabara de retornar do Triângulo das Minissaias


           
Retrato-falado 1          

                                                                               
                                                                            Retrato-falado 2

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Lúcsia quis saber mais sobre o mito. Ela era um lucivivente ser em meio a um reino consumidoido; era uma mulher em meio a fêmeas-reprodutoras; era. Greval prometeu que o apresentaria a ela logo que possível.
O almoço que nossa diva preparou para seu marido era um banquete de Pratão. Desejava que seu homem renascesse e transvivesse. Não havia entre eles sinal de discórdia, pois o brilho-da-estrela iluminava o tombado-satélite. Sim, aquela integração é entendida por amados que se pluriapaixonam, que são cordiadoradores.
Sobre a mesa, sobremesas; sob a mesa, pernas e pés: entrelaçados. Tinham o afinco como que o de um caso que começa, com a vantagem de que cada descoberta a mais complementava as anteriores. Faziam eles daquele dia um novo primeiro-dia. Estavam a merecer um ápice, um cume, um momento de comemoração-bacantemente-dionisíaca.
Por isso é que resolveram ir a um chou, àquele chou. A intenção era a de um perfeito-fecho, de uma comemoração-das-que-aparecem-na-tevê! No entanto, não conheciam a banda: poderia ser ela, quem sabe, uma gigantesca-conhecedora de musicalidade. Não sabiam. Correram o risco, foram atrás; e se todos iam, eles foram.
E eram filas, tumultos, agito, no que não há novidade, como você bem sabe, Karenzita, nossa veneradora-do-megalomovimento. O fato é que estava ali a antifilosofia em formato musical, para que a aclamassem, e eles nem disso sabiam; à espera deles vibrava já a tóxico-audição-mor, e eles a ansiavam, em uma ignorância passiva. E depois de um atraso imemorável e ao mesmo tempo totalmente-memorável-por-sua-concordância-com-o-picaretismo-e-a-má-fé, surgiu a música de abertura do grupo “Eu te amo você”.
Bem notado, Eduardo Dudu, não farei o inconveniente de expor nesta tão bela obra de apresentação da sociedade lisense composição de tão baixo calão e talão. Deixemos para o leitor imaginativo a lembrança daquela sua música mais detestada, mais fixada em sua mente, aquela de que nunca esqueceu, mesmo sempre querendo. E sigamos!

Os primeiros versos foram suficientes. Os amantes se olharam apavorados, como quem diz sem dizer. E não precisaram de neo-ilogismos para entenderem que sairiam mui sutilmente dali. Desviando da vasta gama populacional ali presente – peões-à-procura-de-bois, bêbados-sem-mulher, mulheres-sem-essa-ideia-que-chamamos-de-beleza, entre diversos outros tipos curiosos –, andaram apressados até os portões e correram logo que passaram por eles, com um claro medo de que os in-seguranças os obrigassem a ficar porque pagaram.
Ah! Fugiam da obrigação de permanecer, como não podem fugir os adultos – quando são visitas – diante de um prato que não lhes apetece; como não pode fugir o professor – bode expiatório de todos os pais alisados – diante do aluno indisponível para o aprendizado; como não podem fugir os assalariados – microviventes por desgosto – diante da fome-nossa-de-cada-dia. Fugiram, enfim. Não quiseram presenciar a canção que se iniciava: “Sua cabeça pesa/ Não sei por quê.../ Um chapéu bonito/ comprei para você...”. Fugiram em um ato heroico diante daquela sociedade capetalista; os auros pagos que ficassem para trás!

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Sim, Beazinha, essa postura antimidiática de nossos heróis, nós a consideraremos uma vitória também nossa! Consideraremos assim que a atlantidoidade toma um pouco conta deles e os semi-irmana a nós. Não sente, por acaso, certa evolição por parte de Greval e Lúscia? Sinto e torço, minha cara, pois lhes quero conosco.
- O eu alírico da canção assemelhava-se a qualquer lisense, de modo mais ou menos explícito ou consciente, porque nossa bobulação ama o sofrimento e a dor e faz deles motivos fundamentais para seu dia a dia – dizia Lúcsia a Greval, no caminho de casa.
- Não bastava toda uma letra trilhada de rastejares, de subserviência, de uma moral-rebanhesca, ah! Uma letra que se preze não destaca tão vulgar flagrante de traição, ao estilo filme enlatado e produzido para massas-sem-massa-encefálica. Isso é pura verborreia para a poesia que foi nosso dia – completou Greval. E nisso sorriu para sua inspiração.
Foram para casa. Seu universo era interior, sua força vinha dos dois, não deixariam que influências exteriores prejudicassem aquilo que só cabia a quem amava.

Ora, amigos, que diferença há entre os chous. Que benefício tivemos, amigos! A nossa alegria, a banda ouvida, o sarau declamado! Está incorporado em nós o faro para as boas coisas, com ou sem o dinheiro, com e com amigos, sempre, Úmero!

Já em casa, Greval e Lúcsia ligaram a tevê e constataram uma estranha notícia no jornal televisivo matutino “As Mentiras Que a Mídia Conta”: uma mulher de menos de trinta anos, com cabelos que para muitos recordariam os fiapos de espigas-de-milho, vinha criando fama no reino devido a seus atos terroristas, como: explosões de fábricas de chapas-alisadoras-de-rico, sumiço de dezenas-de-aparelhos-televisores, entre outros atos posteriormente esclarecidos. Nisso, não havia novidade: nem ao menos graça. Desde que primeiro houvesse o desastre, e depois houvesse tentativas de se remediar, a “normalidade” não era afetada. O caos só surgiu a partir de um vídeo caseiro, enviado pela terrorista, com a presença sem-lustre do presidente do sindicato-dos-transportes-coletivos-de-rebanhos-humanos. Este aparecia lendo um texto afirmando categoricamente que dez dos dez mil ônibus da rede de Distúrbico iriam explodir no dia seguinte. Logo após, aparecia a moça dos fiapos de espiga-de-milho, que se autodenominava “Manisofa”, entre estridentes gritos socioaterradores:
- Isso é muito divertido! Isso é muito divertido! O trânsito desta cidade vai parar porque dez onibusinhos vão pelos ares. Uma capital como Distúrbico se rende ao caos porque 0,1% de seus “transportes-coletivos-de-gado-urbano” explodirá! A ordem tão pregada pela sociedade é uma farsa! A seriedade é um absurdo!
Apesar de assustados, Greval e Lúcsia foram dormir tranquilos, pois não precisavam dos transportes coletivos, visto que andavam em seu carro quase-zero quilômetro, movido a pouca-gasolina-e-muito-sangue-de-peões, subentendendo alguma mensagem do tipo: “eu quero que se exploda a perifeía toda”.
Sim, Salles, não me olhe com esta estranha face, que é a sua: nossos heróis também possuíam suas contradições.

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Parte IV – Um aparte para Des Lize e sua humanidade até então não citada devidamente
                                                           “Senta na cama em frente à penteadeira 
Vê no espelho o seu rosto abatido
Neste momento com os olhos rasos d'água
Vê seu futuro totalmente destruído
O sono chega e a envolve de mansinho
Quando ela sonha ser rainha de um lar
Por que num mundo onde ninguém é perfeito
Ela também tem o direito de sonhar”
                                                                                              Barrerito

Em frente ao espelho, Deslize passa sua mão esquerda nos cabelos. Vê que seu rosto está e é triste; está mal maquiada; sente-se fraca e sensível. É nesse momento que sua alma chora a existência perdida. Ela sabe e vê em seu reflexo que seu futuro foi despedaçado, quebrado em cacos sem beleza. Lembra até que não queria muito, só um futuro, uma família, um lar decente e feliz. Percebe que teve poucas mas até boas chances e as perdeu uma por uma. Quando menina, queria ser artista. Com o casamento precoce, apressado, aos quinze anos, grávida, foi-se o sonho.
Seu filho morrera em seu ventre, matando-lhe o útero e as esperanças de novos frutos. Seu marido trata-a como a um trapo e ela vive de atender pinguços, bebuns, sustentando seu homem vagabundo e sanguessuga.
Então ela chora profundamente, um choro que terá que engolir no dia seguinte para encarar novamente a rotina, a mesma de todos os dias. Já fora razoavelmente bela, modestamente sonhadora. Sabe agora, no entanto, que seu destino é afundar-se cada vez mais, numa decadência inevitável e demasiado humana, até que chegue a doença, a miséria e a talvez salvadora morte. Foram só deslizes...

Parte V – Código de não-direitos-do-povo; código de direitos-do-povo

“Eu, o presidente, faço saber que eu próprio sanciono a seguinte Lei por mim mesmo produzida:
Art. 1º: Não é permitido que uma pessoa que seja considerada bonita pela sociedade fique um dia sequer sem alisar os cabelos, sendo a medida punitiva para tão feia descompostura a pena de subvida (que é baseada na obrigatoriedade do trabalho servil sem consciência crítica, no enfrentamento de filas extensas para a pior das assistências hospitalares, na farsa contínua de uma possível melhora da educação pública e no consentimento da manipulação de seus ideais por um pequeno grupo interessado somente em si mesmo). Fica sendo esta a única restrição à nossa preciosa elite.
Art. 2º Esta Lei dispõe, principalmente, sobre a desproteção integral para os seres de subvida.
Art. 3º Além dos termos referidos no art. 1°, considera-se ainda ser de subvida, para os efeitos desta Lei, qualquer pessoa de classe social rastejante, sendo a ela pertencente de nascença ou tendo-a adquirido, e nela permanecido até depois de sua morte e de seu sepultamento.
Art. 4º Os seres de subvida não gozam de nenhum direito fundamental inerente à elite, tendo total prejuízo de qualquer proteção, faltando-lhes, por lei e por outros meios, todas as oportunidades, a fim de lhes dificultar, e sempre que possível, impossibilitar-lhes o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, caracterizando assim uma pseudoliberdade e uma forjada dignidade.
Art. 5º É dever da elite, da sociedade lisense em geral e meu dever particular assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos não-direitos para que devam provocar a doença, a fome, a má-educação, a ociosidade física, o tédio, o amadorismo, a ignorância, a repugnância, a grosseria, a ilusão de liberdade e o conflito constante tanto na questão familiar quanto na social para todos os seres de subvida.

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Art. 6º Todo ser de subvida será objeto de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, devendo ser punido na forma da Lei qualquer pessoa que atente, por ação ou omissão, aos seus não-direitos fundamentais.
Art. 7º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais elitistas a que ela se dirige, as exigências do mal incomum, os não-direitos e totais-deveres dos subviventes, restando, em caso de qualquer dúvida quanto à hermenêutica, o prejuízo dos últimos.”

Greval não se resignava ao neocódigo. Aquilo não lhe fazia o bem que se esperava que fizesse a um etnodominador. Ora, atlântidos-atormentados, nosso herói está cordiferido com tais leis, está mortificado com a aristojustiçaria, e oferece ao manicrata João Pedro II – para nossa grande honra – uma contraproposta...

CONTINUA...

Na próxima semana, não perca o talvez início da decadência de Greval e a ilógica governamental lisense.


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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 9- Novela Semanal Digitalista - Digitalismo


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CAPÍTULO III – “DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS DA LUZ”; DA INVEJA E OUTROS ANJOS DA ESCURIDÃO

Parte IEncontro entre tese e antítese, entre a bonita e o feio; um neofuturo vislumbrando-se

Depois da longa esbórnia outrora referida, como a que Ulisses um dia fizera, tomando por fim dois gins com um dos últimos garçons subviventes de toda a cidade de Distúrbico – era hábito no Reino Sub-Imundo os garçons falecerem após os espancamentos físicos e morais de seus patrões –, Greval seguiu sério em sua mobilete rosnante  para o encontro de Lúcsia, a Tétis do Reino Sub-Imundo, sua esposa e nossa ninfa. Sobre ela, é preciso que os veroatlântidos saibam: não ocupa um aristocargo da burrocracia cabelouca, não tem a exposição midiática de uma modelo chapinhada, não está deitada sobre a emplumada-cama-do-estatos, mas sabe muito bem como ser a mola-mestra-de-um-derrotado. Porque o que sobra de um Greval pós-carnavalesco é um trapo-usando-etiqueta-de-loja-chique (fenômeno esse, Lucas Salles, talvez posteriormente explicado, mas nunca entendido).
É preciso café! Nenhum encontro no Reino Sub-Imundo se dá sem que se tome café. Essa obscura bebida para eles, João Martins, é tão necessária quanto a vodca para nós! Mas enquanto esta é fonte de vida e alegria para nós atlântidos, o café é só base para a forjada-cortesia reinodistântica. Sim, amigos, especialmente em Distúrbico, as pessoas servem café porque são obrigadas, não porque gostam umas das outras. Não era o caso de Lúcsia.
É interessante notar que no Reino Sub-Imundo, louva-a-demo Úmero Card’Osso, alguém teve a sutileza de perceber que após a festa é necessário o descanso. Por isso, criaram o presente feriado na precisa data em que nos encontramos: a Quarta-Encinzas, o consílio entre Baco e Apolo, a passagem da alegria para a sensatez – um dia de folga. Era o momento específico para as pessoas se arrependerem por terem sido realmente felizes e livres, já que a real-felicidade, no reino, é um tabu. No dia a noite, cabe-lhes somente, é preciso que se diga, o fenômeno do sorrriso-à-meia-boca – apresentado socialmente como obrigação, não como sentimento.
Bem notado, sagaz Beazinha, já lhe digo o motivo da briga da noite anterior. É que Lúcsia não queria Greval na etnodominância. Não porque não fosse ético, mas porque não ia a caminho da superação do meramente humano. Ele queria ser a luz em meio à podridão e, com isso, não percebia que somente Lúcsia o iluminava. Estar entre os burrocratas era respirar-lhes o mesmo ar, misturar-se aos dejetos. Poderia imundar-se. Poderia tornar-se um adepto da cultura-que-amassa. Poderia ainda, e o pior, ser simplesmente político, o que para a sociedade cabelólatra significava: cuidar só de seus próprios interesses. Ela tinha ambições diferentes para nosso herói, ambições que remetiam a seu eu interior, à sua pessoa propriamente dita.
Greval foi para a noite, perdeu-se entre a balconista feia, esbarrou em garçonetes rabugentas-e-sem-marido, iludiu-se com a promessa-de-sorrisos-instantâneos mas que no fundo eram alterdestrutivos e acabou voltando para o Olimpo, para sua Ilha dos Amores.
- Sua revolta contra a situação lisense não desfaz os fatos, Greval. Corromper o sistema sendo um de seus mandantes é um autoparadoxo repugnante do qual você tem de fugir.
- Mas, Lúcsia – e disse isso se ajoelhando em postura cavalheiresca –, adentrar a elite é talvez a única maneira efetiva de ajudar nosso reino, mudando-o em seu núcleo.

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- A melhor maneira de ajudar não é atolar-se na pocilga. O melhor a ser feito é estar onde os injustiçados estão para saber o que cada um realmente sente, do que cada um realmente precisa – e depois de uma pausa necessária: – Você precisa de um novo emprego, de um novo rumo.
- Mas... mas... Não sei como e não sei quando. Lúcsia, minha Helena sem Troia, só sei que assim será – e ao dizer isso sorria.
Ouvindo as palavras do marido, Lúcsia pôs a mesa, pôs a cama, pôs sua pessoa. Era dele, para ele e com ele. Ela falou o que nenhum homem pode dizer a si mesmo, fez os carinhos espontâneos que não sabemos definir com palavras, entregou-se da maneira exata que poderia até permitir que ele corresse mundo e conhecesse os vermódromos, mas que também o fazia necessariamente voltar, bioadorador que é, a quem o compreende e o satisfaz. Amor.

Parte IIa amizade para um atlântido é a fonte para uma boa vida; um chou de fenomenais proporções

Ah, bélicos amigos, como é bom nos afogarmos na alcoolatria e no tabacocentrismo! Quase não consigo mais contar-lhes sobre o reino, tamanha é a tremedeira que me escorre dos dedos. Como é boa a presença que me proporcionam! Vocês são meus amigos, vocês são meus amigos...
Lembram-se de nossa visita às fronteiras do Reino Sub-Imundo? Lembram-se de nossa ousadia ao beirarmos às raias da sociedade necroveneradora, ao tangenciarmos a lisocultura? Recordam-se de que conseguimos encontrar um vestígio de essência? Ah! Onde fomos não havia um chapinhado sequer. Ali a beleza estava à solta e nos corações. Encontramos a exceção.
Sim, Karinha, tão marcante fato ocorreu no mesmo dia em que Greval voltou para Lúcsia, ou seja, pouco após a união pró-ápice ser reinstaurada. Aproveitando a belíssima oportunidade que tivemos, fomos ao irônico-mega-sardônico chou da desconhecidíssima banda “Boca Suja, Os Detestadores do Sucesso”.
Ah! Não sabíamos ainda do que era capaz a perifeía – ou centrofeía – reinodistanciada. Descobrimos só e felizmente que os enxotados-da-sociedade eram lançados naquele vale que estava para-além-dos-mapas. E além-dos-mapas é que moravam as pessoas, no Reino Sub-Imundo dos Alisamentos Capilares.
O bom-humor tomou-nos a todos majestosamente, mais uma vez. Um ser cabelocultuante jamais imaginaria tamanha alegria. Era a expressão absoluta das rimas miseráveis por nós tão adoradas. Era a pré-munição de um Titiquismo vindouro!
Ah! As horas de espera ao lado dos poucos, mas sinceros desconhecedores-da-higiene-mínima e conhecedores-da-amizade-máxima, das pessoas que passam sete-anos-sem-lavar-o-corpo, mas que sete-vezes-por-dia-lavam-a-alma... Como nos esquecer das bebidas feitas por balconistas-embriagados-pela-vida-e-super-simpáticos-com-a-gente, das discussões entrecerradas entre nosso-flutuante-humor e o bom-humor-constante-da-perifeía... À medida que o tempo deslizava e o chou se aproximava tornávamo-nos mais e mais eufóricos-cultuadores-da-animação, super-amigalhões-de-Baco, frenéticos-entusiastas-do-ritmo-novo.

A banda que faria a abertura do chou não foi. Os seguranças que garantiriam a segurança não foram. A polícia que espancaria indiscriminadamente inocentes não foi! Não foi sequer preciso contratar serviços especiais para proteger as pessoas da perigosa polícia reinodistântica!

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Lembro-me onírica e perfeitamente do vocalista, Inho, entrando no palco aos modos de um equino arredio, sem trote e aos coices; lembro-me de seus primeiros grunhidos e de não ter ouvido sua voz por um impensável tempo nos chous produzidos pela cultura-que-amassa. É expossível esquecer o salto dado por Inho entre nós, desfacelando-se no chão e sendo levado à ambulância mais próxima, pouco depois.
Foram minutos de muita a-tensão. Estávamos felicíssimos e a banda tocou mesmo sem o vocalista as três primeiras músicas, que dançamos como se estivéssemos caminhando entre cachoeiras e cataratas em um recanto das águas. Lembram-se, Card’Osso e Caipira, meus-irmãos-de-leite-poético, como batalhávamos muito nos assemelhando a antigos gladiadores de um clube-de-lutas-inúteis? Você, Eduardo Dudu, dançava com minha Bea uma valsa que em nada combinava com o ritmo tocado e pouco se importava, porque estava feliz e bem-acompanhado. A senhorita Winehouse, que por ora se ausentava, olhava patética para a música, mas estava em um frenesi inefável em seu interior. Não perdemos por nada as três primeiras canções que deturpariam o atual sistema liso-capilar, mas que nada difamaram, porque o vocalista, como já se disse, fora hospitalizado antes de começar a cantar.
O quê?! É verdade, João Martins, a amnésia alcoólica já me impedia de lembrar que, em um momento demofúrico, em meio ao sangue que dele escorria, surgindo da névoa excessiva e do gelo derretido, entre tombos e uma dentição agora defasada – como consigo agora perfeitamente visualizar – Inho, o potrovocalista, retornou ao palco.
E não quer saber de cantar. Está furioso com as notícias vindas de São Nunca e de São Ninguém, acusando-o e à sua banda de terem o chou mais luciférico da História! Por isso mesmo, e com muita ênfase, é que seu maior sucesso, "Um robô efeminado", foi antecedido deste discurso:
- Eu dedico essa música aos verdadeiros religiosos porque eu sou um filho de Deus e os homossexuais também são. Todos vocês também são filhos do Deus, meu irmãos de perifeía, porque Ele é um cara muito legal que gosta muito mais do bom-humor que nós temos que das caras emburradas e embostadas dos chamados “doutores da lei”.
Era esta a voz do “rei da lama”. E ela chegava somente a seus vinte farejadores-da-titica, esses únicos fãs que ousaram assistir a seu chou da turnê "Não fale com a boca cheia, fale com a Boca Suja".
Pouco depois, e já se acalmando, “Satã-Inho”, como foi apelidado pelos poderosos de São Nunca e São Ninguem, enfureceu-nos com suas cosmocanções, das quais recordo não recordo de nenhum trecho, mas que muito me emocionaram, seja pela sua pluriverdade recôndita, seja pelo seu titicante humor autoirônico, ao qual sempre miramos e admiramos.
Delirávamos como crianças que recém-descobrem o pirulito roubado. Nossa identificação foi medonha, pois se seguiam atabalhoadamente as mais deliciosas rimas-miseráveis-ou-abaixo-da-linha-da-miséria, distantíssimas das rimas magnatas ou imperialistas, vigorantes nos sistemas burrocráticos da poesia lisense. As ideias pré-titiquistas pulavam e nós pululávamos, Bea!
E enquanto a poesia-canalha vibrava no palco, nós não sossegávamos. Começamos a lançar rum e catuaba para os céus e, inevitavelmente, uns nos outros; começamos a dançar sem limitação alguma. E fizemos ali mesmo um Encontro Atlântido de Poesia, recitando poemas titiqueiros doentiamente, tais quais os que se seguem:

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descoberta na ponta de uma arruaça

Flávia Recabarren, atlântida que infelizmente não embarcou nesta viagem conosco


Debruçada no balcão da padaria
ela descansava da noite anterior.
Escolheu o primeiro doce
da primeira fileira
e sorriu pro atendente.
Achou bonito o dia nublado
e não lavou o telefone anotado
à caneta no braço direito.


esta fotografia é famosa e se chama: Flávia Recabarren e Úmero Card’Osso descansam em cima do túmulo de Alphonsus de Guimaraens

psicotrajetória extra-expediente

Úmero Card’Osso


ele chegou do trabalho
afastou o casal que dançava um tango
afastou-os com um machado
e encontrou-a enforcada numa árvore
num desenho numa gaveta
numa escultura de Dali
aquele capeta

no outro dia, no café da manhã
afastou uma banda de rock
com o revólver
e desligou o despertador
o sonho e o gerador
de energia do planeta

ele chegou ao trabalho
afastou o chefe que barrava o caminho
com o pé, com ou sem carinho
só um pouquinho
para o lado
e entrou para a vida
pelado

“Todos os relógios estão errados”

Marcelo Beso, atlântido que infelizmente...sumiu para o Sobre-Mundo


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 “Eu me sinto um tiozinho decadente e acabado, que já foi bonito um dia, já foi um moço bem apessoado. Mas as universitárias acabaram comigo, sugaram minha alma através da uretra. Eu sempre me entregava, eu bebia com o dinheiro dos pais delas, eu acordava em quitinetes reviradas, o aparelho de som ligado, eu comia a comidinha congelada que as mamães mandavam. O coração desarranjado, todo fodido de emprestar calor por aí, de sustentar sonhos bestas.
Tive um, dois, três amores. Os poemas de guardanapo me proporcionaram algumas boas fodas. O suficiente para agradecer pelo resto da vida”.
Flávio, irmão da Flávia, o maior titiquista não-titiquista

O chou éramos nós. Éramos a vida. O mundo sempre fica pequeno para o tamanho de nossa amizade, para a força de nosso mútuo-sabotar! Iluminadissimamente, a apresentação terminou.


            Eia, atlântidos! Eia, atlântidoides! Atlantidoeiros brincalhões! Que alegria me dá poder rir junto com todos vocês! E que chou magnífico esse que nos foi propositado. Que maravilha é o poder da amizade, da roda-de-amigos recomposta pelo bom-motivo-ou-por-motivo-nenhum!

Nossa única decepção quanto a essa visita às tangentes-reino-distanciadas ocorreu algumas semanas depois. Sim, porque os Bocas Sujas, inexplicável e absurdamente como tudo que se refere àquele povo capirado, passaram a ser ouvidos e adorados, amados e colocados em videoprogramas gluteocêntricos e logofugidios.
Sem motivos justos, como é costume, “Os Detestadores do Sucesso” foram condenados à injustiça-da-fama, à nudez-da-exposição, à pernosticidade-do-reconhecimento. Estavam acabados, enfim. Não poderiam ser nem nunca mais foram originais. O decreto do esgostamento intelectual de tal banda pode constar de um fato específico: abandonaram sua verdadeira imagem – natural, espontânea e desapegada de qualquer formalidade ou oficialidade – em prol da imagem que deles a mídia vendia à bobulação. Tiveram que fixar valores pessoais e de grupo e se prender a eles; tiveram de repetir constantemente posturas que eram só momentâneas para que tivessem uma “coerência artística e estilística”; tiveram que abrir mão de qualquer criatividade-arriscada-ao-lucro-das-empresas-de-música para que o sucesso fosse garantido e contínuo, ainda que cada vez mais vazio.
 As minipessoas de microvidas, obviamente, acreditariam em sua “espontaneidade”; mas eles, alguns dos únicos esclarecidos autossarcásticos daquele sub-imundo, não poderiam crer. No entanto, creram até mesmo nas falácias que o jornal contou a seu respeito, pondo em dúvida seu passado perifeico e amplifeico; de outro modo, embasbacaram-se com seu neopassado, com a infância luxuosa que de fato viveram nas mansões de Padrid. Tombaram definitivamente aos pés da Imagem. O supracaos do grupo sobreveio-lhe, enfim, quando se depararam com inapeláveis-apelativas manchetes, a seu respeito, na capa do maior jornal lisense – “As Mentiras que a Mídia Conta”:

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A reação dos Bocas Sujas foi imediata.

CONTINUA...

Na próxima semana, não perca a valorização do universo feminino de Manifosa e Des Lize, a dona do Bar Sujo.


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sábado, 7 de dezembro de 2013

LIVRO REINO SUB-IMUNDO - PUBLICAÇÃO 8 - Novela Semanal Digitalista - Digitalismo



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Atlântida Karen Winehouse, sua admiradora de homens desnutridos, já que resolvi adentrar no assunto, reservei para você a apresentação da seção esportenativa. Vendiam-se ali roupas que tornavam qualquer pessoa atleta pró-fissional e pré-fissional; que tornavam a pessoa atleta-de-fim-de-semana, jogador-de-fim-de-ano ou esportista-de-fim-da-vida; havia roupas-para-atletas-religiosos-não-mostrarem-de-mais, e até mesmo roupas-para-ser-esportista-em-cerimônias-fúnebres.

Se comecei, agora vamos.

Úmero, seu detestador-mor da mídia, há agora à sua vista a Seção-dos-Milagrinhos-e-Milagretes, em que os lisocultuadores anônimos buscam roupas que os tornem famosos-por-um-cedê-de-sucesso e em que os famosos procuram vestes para nunca-deixarem-de-ser. Há ainda a Seção “As Mentiras que a Mídia Conta”, adaptada da tevê e reservada a inventar calúnias a fim de que o povo de cabelo sub-imundo tenha assunto para falar e orgulho para se motivar. Mais adiante, Card’Osso, falarei detalhadamente desse abestalhamento.

Lucca, tu que és o mais irônico dentre nós, nesse feirão há ainda a roupa-psicologizante, que serve para as pessoas que querem parecer pensadoras, mas não são capazes de tanto, forjarem um ar intelectual. E o importante disso tudo, como você já concluiu, é vender ilusões...

(Gostaria ainda, amigos, de deixar um comentário extra: entre todas as inutilidades ou futilidades possíveis de serem inventadas, a única que ainda não existe é alguma espécie de proteção, loção ou chapéu para os cabelos chapinhados contra a chuva e toda espécie de água... Torna-se, portanto, importante notar que, se chovia, pois às vezes chovia – o que era muita maldade do céu –, as os cabelos alisados se desfaziam.

Ora, moças atlantizadas para quem agora olho e que fazem essas belíssimas faces, sabemos que sem água expande-se o mau-odor. Nesse microcosmo desprezador-de-narinas chamado Reino Sub-Imundo, as pessoas não lavavam os cabelos todos os dias e até mesmo seus banhos eram minúsculos, inenxergáveis, semiexistentes. Não se importavam com isso – contanto que estivessem bonitos diante da sociedade, punham-se fétidos mesmo, muito: com convicção. E quando chovia – pois o céu por vezes tinha essa estranha ousadia, esse desafio à ordem – era o caos, o desespero. Havia tentativas mais-escandalosas-do-que-histérica-em-seus-dias de fugir da chuva. E, por conseqüência, os cabelos cresciam e se enrolavam quando tão cruel fenômeno ocorria... Foi desta forma, queridas, que surgiram os primeiros Movimentos Anti-Chuva do Reino. Aquele povo artificial praguejava contra a natureza, humilhando-a profundamente e, quando a chuva parava, voltava-se para o céu, com cartazes escritos assim: “Abaixo o céu!”, “Fora o céu!” e “Por que não vai chover pra lá?”).



Mas como ia dizendo, senhor Lucca Moretti, havia, finalmente, várias sessões para a multiprodução capilar: das musas, das consumidoidas e até mesmo das feias-sem-espelho-mas-metidas-a-fadas... Mas nada! nada! nada! se comparava ao principal produto a ser comercializado naqueles concursos.

 E não pense, João Martins, seu engolidor de beldades, que eram as modelos. Eram disparadamente as chapinhas, pois o Concurso-de-Beleza-Lisense era o paraíso artificial das alisadoras de cabelo. Grandes, pequenas, boas, malvadas, invocadas, simplesinhas, super-assadeiras, arrebentadoras-de-fios, capazes desde pequenas-tostadinhas, passando por frituras-excêntricas, até chegar aos massacres-capilares-em-massa. Havia inclusive, glorioso atlante, uma classificação estritamente importante: as chapas alisadoras de rico, as chapinhas de quem não pode e as de remediado – que são as que parecem não poder mas podem; ou vice-versa, que eu também não sei todos os detalhes de tudo...



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Enfim, havia pra todos os gostos, pra todos os tipos. Uma festa! Aquilo era uma Festa-dos-Cabeludos! E o patrocínio era das Lojas Multi-Titica, o maior centro-de-inutilidades sub-imundas.


Chapinha de quem não pode
 


                         Chapinha de remediado (consegue os  mesmos efeitos sendo imensamente mais barata)




 

Chapa alisadora de rico                         



Para que você possa fazer idéia das proporções de tal evento, meu amigalhão Úmero Card’Osso, os desfiles a que me refiro aconteciam em espaços que poderiam ser comparados aos nossos campos de sofiabol, quando lotados. E ficavam milhares de minipessoas de microvidas do portão para fora, por não conseguirem ou não poderem entrar. Mas telões eram providenciados, não pelo presidente-louco – que naquele momento coletava minhocas gordas para alimentar pássaros graúdos –, mas por Greval, cumprindo desagradado seu dever de etnodominador. Descontente, sentindo-se injustiçado e injustiçador, ele investia na organização de um megaevento com o qual antipatizava terrivelmente. Seu dever, aliás, estava nisso: ser o continuador de uma ideologia absurda. E foi com cara-de-purgatório que mandou espalhar pelos quatro cantos não-líricos do estádio esta mensagem:



A chapa que você compra é a nossa alegria!
Viva a Propaganda da Desnecessidade!



As modelos então desfilam – não por ser importante, mas por uma formalidade burrocrática. Algumas dão passos de garça-desarticulada  com o pescoço caindo para trás, resultado evidente dos excessivos puxões de cabelos, para alisá-los. Outras, em tudo muito semelhantes às seriemas, mal conseguem andar, por serem demasiado magricelas nas pernas – maníaco modelo de beleza por lá adotado. Outras ainda desfilam com a boca aberta, porque a chapinha queimou-lhes a nuca e o machucado muito arde, o que faz daquele cenário mais uma desinfeliz hora alisada.



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Algumas modelos vão às passarelas com a cara amuada, pois querem do fundo de seu couro cabeludo a cachocabeleira-expansiva. Mas não devem, não podem. Quanto a isso, Joque Lacão, o já referido faxineiro de Greval e despertador de consciências nas horas vagas, nos diz: “Os neuróticos não desobedecem à lei”.
 
(garça)   (seriema)



Caipira, meu parceiro de vida e de copo, que bom tê-lo conosco para mais uma rodada de vinho, para todas as rodadas de alegria! O garçom já lhe trará outra dose e as meninas juram que dançarão para nós após todos desmaiarmos. Acomode-se nas nossas poltronas-da-crítica-de-bar e veja: as modelos capilantras são o símbolo do que há de supraexcelente no Reino Sub-Imundo. Só os chapinhadores mais extravestidos podem chapá-las (entre eles, com maior destaque estava frufruisticamente Esníguio). E, como não poderia deixar de ser, vence a que usasse a chapinha mais moderna, o melhor neolançamento, a nova revolução no mercado das chapinhas – algumas delas vinham com máquinas fotográficas digitais embutidas, outras com tocadores de música-sem-música, outras ainda com disque-namorado-em-domicílio! O público, tolo, nem percebia que quem disputava não eram as moças, mas as marcas de alisadoras!

Seque-e-Rele era a atual misse. Cabia milimetricamente em todas as medidas: capilares. As outras medidas não interessavam: muito. Eram os cabelos, a chapa, a fritura, o fedor bem-ou-mal-disfarçado (ou ainda, a nova marca ou o novo modelo que deveriam comprar) o que realmente interessava. Seque-e-Rele era um fantoche, uma joana-boba, uma maria-ninguém, mas todos a viam como um ídolo. Ela, linda e abrilhantadora de olhos, desfilava cheia-de-si e vazia-do-todo.

Sim, Lucca, crítico de absurdos, havia alguns pré-requisitos para se disputar o cargo, e todas tinham de atendê-los: não fumar, não beber, não injetar e ser virgem e pura, semissanta de se pôr em altar para se beijar os pés. Além disso, tendo iniciado o concurso, vencidos os pré-requisitos e pós-esquisitos, interessava ainda e mais a futilidade. Para a atual misse, batom, bloche, pó-de-arroz, vestidos, sapatos, tamancos e perfumes eram os únicos assuntos interessantes no mundo. Era uma mulher, portanto, perfeita, segundo os padrões reinodistânticos. Vivia ela, infelizmente, uma atmosfera da exterioridade absoluta.

Digam-me todos, atlântidos, digam! Vocês, como eu, não torcem para que ela se transforme, para que ela cresça, para que ela veja além da sola-do-próprio-pé?! Não adianta...



Em meio a tudo aquilo, Osnígol foi escolhido o chapinhador-desta-e-de-todas-as-vezes: podendo, em termos de importância, ser comparado a nosso Agarram O’Bell, em talento inventivo. Mas, à surdina de seu quarto, à noite, sozinho, lamentando-se, não era uma macropessoa como supunham, e ninguém sequer o conhecia ou reconhecia. Ali suas dores gástricas fundadas no nervosismo, seus problemas-medos-receios fervilhavam e suas dúvidas eram um automartírio, uma automutilação terrível. Ovosníguio não era desprovido de inteligência. Ovovosníguio possuía uma visão ampla, uma abertura mental, e era esse o seu inferno. Porque se não visse, não pressentiria, não refletiria. Mas via.



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Ora, se não era ali ao lado da passarela – passadas as suas dúvidas momentâneas quanto à importância de seu trabalho – que se sentia bem no mundo, à vontade e com vontade, de uma alegria comparada a de muitos protagonistas de filmes infantis, aos quais muito ignorantemente nunca assisti.

O comportamento do chapinhista nos decepciona, atlântidos... Constrange-nos. Por alguns momentos, devido a nossa Gandhi-bondade também momentânea, torcemos por ele, por sua redenção da obtusidade lisense. E ele nos decepcionou. Aplaude agora feliz e sorridente uma rapazola qualquer: alisada, plastificada, uma tábua (s)em pessoa.

A seu lado, discreta, porém ardente, Tarja bate exatamente três palmas à vencedora. Obrigação essencial de quem está e não está no sistema. Angústia de quem vê possibilidades de mudança em seu chefe, que não muda. Articulação de quem pensa em algo maior. Como, Bea? Sim, também acredito que Tarja ainda muito nos promete. Veremos. Veremos.



O concurso, como vocês puderam ver, elevados aristoamigos atlântidos, é semi-interessante, ou mesmo um-quarto-interessante... E vocês vão bem se lembrar, não se compara ao concurso de nossa Sociedade Atlântida! Este sim é universo-abrangente, arrebatador, furioso e hercúleo. Aqui são outras as mulheres que desfilam, porque possuem a verdadeira potência: são as Aceitas por Baco!

Antes de tudo, no nosso Misse-Essencial há dois pré-requisitos: por um lado, possuir formação crítico-artística, provinda dos cursos de Amizade Transparente ou de meios autodidatas; por outro, ter boa percepção para sentidos ocultos do que não é dito letra-por-letra, mas que exige uma compreensão do que está no ar, do que só uma sensibilidade avançada pode permitir.

Sem isso, não podemos respeitar uma misse, afinal ela é: modelo, protótipo, arquétipo, um ideal a ser alcançado. Porém tais pré-requisitos são para poder disputar o concurso, porque para ganhá-lo jamais desprezaríamos: a beleza, a força libidinal, o vigor atlético, torneamento muscular na medida, a provocação estrábica: nossas modelos atiçam o público, atentam-no, fazem dele viajantes do odor di femina, e todos vão embora felizes, e sem comprar nada. Nossos concursos não são comerciais, são exibicionais e potenciais. O desfilar é para aquelas que podem se mostrar e têm o que mostrar. Quem não pode, calunia, difama, tenta rebaixar aquilo que não alcança. Quem gosta de ver, assiste. Quem vê, nunca mais esquece, porque há exímia qualidade na pré-seleção. Os platônicos aqui encontram o prazer da observação sedenta; Tântalos endoideceriam!

Keira foi eleita Misse-Essencial no último concurso. Ela tem a naturalidade por base, sendo dona de cacheados elegantes, de enrolados fenomenais: tem postura, tem força – ainda que com delicadeza, tem presença. Seus cabelos já tiveram várias cores e formatos, já fez e desfez de tatuagens, e isso importa e não. Porque nós a amamos e admiramos, Keira, do que jeito que for e quiser ser, desde que você mesma queira e escolha. Quando desfila, os homens se contorcem, como cachorros mal-adestrados; é fato ainda, Karen, que ela agrada excepcionalmente ao público feminino desprovido de recalques. Ora, é certeza nossa que não precisamos inventar pretextos e desculpas para exibirmos lindas e pensantes mulheres. Elas são orgulho e modelo da espécie, para todos nós.



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Mais ainda, nossa Misse-Essencial é uma mulher livre. Quando sente algum desejo ou vontade, convida quem quer para fazer o que bem quiser, sem necessidade de padrão comportamental baseado em pseudopudores e etiquetas absurdas. Keira é livre, ela se joga na felicidade, lança-se no universo.

Vejo como sorriem graciosas, Bea e Karen. De fato as Graças estão reencarnadas em vocês duas. É realmente bom lembrar que na nossa sociedade as mulheres não precisam se envergonhar de sentirem o que sentem e de exporem a gana de suas possibilidades e de seus desejos. Vocês podem, se quiserem, agir sem medo do puritanismo invejoso que ama a forjada e chatíssima “virtude”, da maneira como as moralistas-do-passado-manchado a concebem. Ah, mulheres, vocês lá realmente destacam-se em sua segurança. Sabem que não está tudo terminado quando dão seu último retoque na maquiagem, têm consciência de que não é o auge serem observadas por todos desde que nunca abram a boca para falar. Reconhecem bem, inclusive, que quando dois se trancam entre quatro paredes não é o fim de seu papel na história, mas o ponto de partida de sua escalada.




Keira preparando-se para concorrer



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Na próxima semana, não perca o início da volta de Greval ao lar, como Ulisses que, depois da saga, retornou. Tudo isso e muito mais no:


CAPÍTULO III – “DO AMOR E OUTROS DEMÔNIOS DA LUZ”; DA INVEJA E OUTROS ANJOS DA ESCURIDÃO

Parte IEncontro entre tese e antítese, entre a bonita e o feio; um neofuturo vislumbrando-se



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