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quinta-feira, 3 de março de 2011

ALGUMAS CANTIGAS DO TROVADORISMO

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Afonso Eanes de Coton
Cantiga de maldizer

Maria Mateu, daqui vou desertar.
De cona não achar o mal me vem.
Aquela que a tem não ma quer dar
e alguém que ma daria não a tem.
Maria Mateu, Maria Mateu,
tão desejosa sois de cona como eu!

Quantas conas foi Deus desperdiçar
quando aqui abundou quem as não quer!
E a outros, fê-las muito desejar:
a mim e a ti, ainda que mulher.
Maria Mateu, Maria Mateu
tão desejosa sois de cona como eu!


MARTIN CODAX

Tenho notícias
de que hoje chega o meu namorado
e irei, mãe, a Vigo.

Tenho notícias
de que hoje chega o meu amado
e irei, mãe, a Vigo.

Hoje chega o meu namorado
e está são e vivo
e irei mãe, a Vigo.

Hoje chega o meu amado
E está vivo e são
E irei, mãe, a Vigo.

Está são e vivo
E amigo do rei
E irei, mãe, a Vigo.

Está vivo e são
E é da confiança do rei
E irei, mãe, a Vigo.


Joan Airas de Santiago

Uma dona, não vou dizer qual,
teve um forte agouro,
pelas oitavas de Natal:
saía de casa para ir à missa,
mas ouviu um corvo carniceiro
e não quis mais sair de casa.

A dona, de um coração muito bom,
ia à missa
para ouvir seu sermão,
mas veja o que a impediu:
ouviu um corvo sobre si
e não quis mais sair de casa.
A dona disse: - E agora?
O padre já está pronto
e irá maldizer-me
se não me vir na igreja.
E disse o corvo: - Quá a cá
e ela não quis mais sair de casa.

Nunca vi tais agouros,
desde o dia em que nasci,
como o que ocorreu neste ano por aqui:
ela quis tentar partir,
mas ouviu um corvo sobre si
e não quis mais sair de casa.



Pero da Ponte

Quem a sua filha quiser dar
uma profissão com que
possa prosperar
há de ir a Maria Dominga,
que lhe saberá muito bem mostrar;
e vos direi o que lhe fará:
antes de um mês lhe ensinará
como rebolar as ancas.

E já lhe vejo a ensinar e sustentar
uma filha sua;
e quem observar bem suas artes
pode afirmar isto:
que de Paris até aqui
não há mulher
que rebole melhor.

E quem deseja enriquecer
não ponha sua filha a fazer
trabalhos manuais;
enquanto esta mestra aqui estiver
ela lhe ensinará a profissão certa
para que seja uma mulher rica,
a não ser que lhe faltem homens.
como rebolar as ancas.

Deve-se saber disso,
para aprender essas artes;
além disso, pode-se aprimorar
cada vez mais na profissão;
e depois que aprender tudo muito bem,
irá sustentar-se como puder;
Sustentar-se com seu próprio trabalho.



GENI E O ZEPELIM

De tudo que é nego torto,
do mangue e do cais do porto,
ela já foi namorada.
O seu corpo é dos errantes,
dos cegos, dos retirantes,
é de quem não tem mais nada.
Dá-se assim desde menina
na garagem, na cantina,
atrás do tanque, no mato.
É rainha dos detentos,
das loucas, dos lazarentos,
dos moleques do internato
e também vai amiúde
com os velhinhos sem saúde
e as viúvas sem covil.
Ela é um poço de bondade
e é por isso que a cidade
vive sempre a repetir:
Joga pedra na Geni,
ela é feita pra apanhar,
ela é boa de cuspir,
ela dá pra qualquer um,
maldita Geni.

Um dia surgiu brilhante
entre as nuvens flutuantes
um enorme zepelim;
pairou sobre os edifícios,
abriu dois mil orifícios
com dois mil canhões assim.
A cidade apavorada
se quedou paralisada
pronta pra virar geléia,
mas do zepelim gigante
desceu o seu comandante
dizendo: mudei de idéia;
quando vi nesta cidade
tanto horror, iniquidade,
resolvi tudo explodir,
mas posso evitar o drama
se aquela formosa dama
esta noite me servir.
Essa dama era Geni,
mas não pode ser Geni,
ela é feita pra apanhar,
ela é boa de cuspir,
ela dá pra qualquer um...
maldita Geni.
Mas de fato logo ela,
tão coitada, tão singela
cativar o forasteiro!
Um guerreiro tão vistoso,
tão temido e poderoso
era dela prisioneiro.
Acontece que a donzela,
isso era segredo dela,
também tinha seus caprichos:
a deitar com homem tão nobre,
tão cheiroso, a brilhar cobre,
preferia amar com os bichos.
Ao ouvir tal heresia
a cidade em romaria
foi beijar a sua mão:
o prefeito de joelhos,
o bispo de olhos vermelhos
e o banqueiro com um milhão.


Vai com ele, vai Geni,
você pode nos salvar,
você vai nos redimir,
você dá pra qualquer um...
bendita Geni.
Foram tantos os pedidos
tão sinceros, tão sentidos,
que ela dominou seu asco,
nessa noite lancinante
entregou-se a tal amante
como quem nasceu carrasco.
E ele fez tanta sujeira,
lambuzou-se a noite inteira
até ficar saciado
e nem bem amanhecia
partiu numa nuvem fria
com seu zepelim prateado.
Num suspiro aliviado
ela se virou de lado
e tentou até sorrir,
mas logo raiou o dia
e a cidade em cantoria
não deixou ela dormir.
Joga pedra na Geni,
joga bosta na Geni,
ela é feita pra apanhar,
ela é boa de cuspir,
ela dá pra qualquer um...
maldita Geni.